Ontem tive um dia movimentadíssimo, pela manhã fui ao velório de um companheiro de trabalho da minha esposa, foi lá no Araçá. Após o almoço, fui ao Colégio São Francisco Xavier, aqui no Ipiranga, para ver os meus netinhos participarem das danças na festa junina. Após saborear milho verde, pastel de palmito, espetinho de linguiça e um crepe de queijo, tudo isso acompanhado de duas Skols em lata, fui para casa descansar. Minha esposa ficou por lá com o resto da família.
Cheguei em casa por volta das 19h…. Quando estava quase cochilando no sofá, a surpresa! o meu vizinho voltou a tocar o seu piano, que há muito tempo eu não ouvia! Entre muitas melodias que ele tocou duas delas me emocionaram muito. Foram duas toadas sertanejas que me fizeram lembrar de meu falecido pai. Enquanto eu ouvia as músicas, meus pensamentos se dirigiram para a velha casa onde meu avô morava, lá Rua Lucas Obes, 473. Nós não tínhamos rádio e morávamos na Rua Agostinho Gomes. Após o jantar íamos na casa do vovô para meu pai ouvir um programa que era apresentado na antiga Rádio Record chamado "Os três Batutas do Sertão", o trio formado por Raul Torres, Florêncio e Rielli, patrocinado pelo Sabão Minerva e era transmitido no horário das 19 às 19h30min, às segundas, quartas e sextas-feiras. Eles cantavam músicas chamadas "caipiras" e no início do programa o trio anunciava o patrocinador com uma música que dizia:
"Boa noite meus senhores, ‘acabemos’ de ‘chegá’
Boa noite meus senhores, ‘acabemos’ de ‘chegá’
Uai, uai, acabemos de ‘chegá’,
Junto com o Sabão Minerva
O sabão melhor que há…”
Duas músicas que eram interpretadas pelo trio eram as preferidas de meu pai, seus títulos eram "Colcha de Retalhos" e "Mourão da Porteira". Sempre que ele estava lidando com alguma coisa em casa, eu ouvia ele cantarolar essas composições. Assim, peço permissão aos meus amigos para transcrever abaixo as letras dessas canções em homenagem ao meu querido pai que partiu tão cedo:
Mourão da Porteira
"Lá no mourão esquerdo da porteira, onde encontrei você ‘prá’ despedir.
Uma lembrança minha derradeira, é um versinho que nele escrevi.
Você às vezes passa esbarrando nele. E a porteira bate ‘prá’ avisar.
Você não lembra que sinal é aquele. E nem sequer se lembra de olhar.
Aqui tão longe, pego na viola. E aquele verso começo a cantar.
Uma saudade é a dor que não consola. Quanto mais dói, a gente quer lembrar.
Você talvez não sabe o que é saudade. Uma lembrança você nunca sentiu.
Pois de esquecer às vezes tinha vontade. Esta vontade meu peito feriu.
No dia que doer seu coração. Sentindo a dor que eu também senti.
Você chorando passa no mourão. E lê os versos que nele escrevi.”
E a outra música infelizmente eu não me lembro da letra completa, só me vem à mente alguns versos que eram assim:
Colcha de retalhos
"Eu sei que hoje não te lembras dos dias amargos
Que junto de mim fizeste um lindo trabalho.
E nessa sua vida alegre tens o que queres
Eu sei que esqueceste agora a colcha de retalhos.
Agora na vida rica que estás vivendo
Terás como agasalho colcha de cetim,
Mas quando chegar o frio no teu corpo enfermo
Tu hás de lembrar da colcha e também de mim…”
O vizinho tocou ainda mais algumas músicas românticas, mas essas duas mexeram com o meu coração, me transportaram no tempo e me fizeram verter algumas lágrimas. Saudades de meu querido pai, tenho certeza que ele, de onde estiver talvez esteja lendo estas minhas palavras. Que Deus o ilumine.