A Vila Olímpia teve sua primeira linha de ônibus na metade dos anos 1950. Sua linha inicial a princípio era na Rua Clodomiro Amazonas próximo à rua das Fiandeiras.
Posteriormente foi parar na rua Nova Cidade bem perto do cruzamento da rua casa do Ator onde ficava a padaria Mondego, de propriedade de Augusto Pissara. Seus filhos Álvaro e Lurdes, ficaram posteriormente à frente do estabelecimento após a morte do seu Augusto, em 1963, num acidente rodoviário na estrada da morte BR 2. Hoje BR 116, São Paulo Curitiba.
Dali o ponto inicial da linha 152 Vila Olímpia, que pertencia a CMTC, foi deslocada para o final da Avenida Dr. Cardoso de Mello próximo a Alameda Raja Gabaglia. Em 1960 teve início a privatização de muitas linhas por parte da CMTC. A linha 152 Vila Olímpia foi uma das privatizadas. Coube a uma empresa de Santo André, Companhia ABC de Transporte Coletivo, ficar com a concessão dessa linha. Eram ônibus completamente diferentes dos ônibus da CMTC. A princípio vieram ônibus que eram mais de transporte rodoviário com bancos de encosto alto reclinável coisa incomum no transporte coletivo popular.
Os motoristas eram todos uniformizados, calça azul marinho e camisa azul bem claro.
Estavam sempre bem penteados, barbeados numa demonstração de limpeza.
Isso atraiu a mulherada que tinham eles como verdadeiros artistas de cinema.
Não tinha uma do bairro que não queria namorar um motorista da ABC.
Toda manhã havia disputa de moças para ficar no banco dianteiro próximo ao motorista.
Eram poucos os cobradores felizardo por uma escolha feminina. Havia muito preconceito pelo fato de a maioria dos cobradores serem nordestinos.
Caso tivesse um bonitinho que não fosse nordestino o banco ao lado dele sempre estava ocupado por uma moça interessada. E, haja papo!
A paquera começou pelas industriarias e comerciarias, que toda manhã pegava o ônibus para trabalhar. Mas, quando vieram as empregadas domésticas, aí a coisa mudou de figura. Elas só podiam freqüentar assiduamente os veículos à noite depois de encerrada sua tarefa doméstica. O balaústre próximo ao motorista ficava quente devido à mão de alguma que estacionava ali às 20 horas e só soltava o cano vertical à meia noite quando o motorista entregava o veículo. Aí a festa começava e ia até algumas horas de lá matina.
Quem mais “comia” digo namorava era o Cláudio. De fisionomia bonita ele era o xodó das moçoilas. Namorava firme com as do dia e mandava ver nas da noite. Enquanto não dava confusão tudo ia muito bem. Mas quando havia a descoberta da namorada matutina, aí a coisa fervia. Encrencas mil. Puxões de cabelos, e até as duas rolando pelo chão a Vila viu.
Quando vinha alguma mulher querendo acabar com a encrenca sempre tinha homens que não deixavam. Tinha gente que tirava um sarro com Cláudio… Olha cuidado para não ficar tuberculoso. Muito sexo não é bom. O poço sempre fica, mas a corda um dia acaba, diziam muitos que não tinham a mesma sorte deles, os motoristas.
Um dia Cláudio tinha um encontro depois da meia noite na hora da entrega do ônibus na garagem, que ficava na rua Funchal. Combinou com Milton que jogava no Flamengo da Vila Olímpia. Era nosso zagueiro central. Ambos iam ter uma noitada com duas empregadas domésticas. É lógico que a melhor das duas era a do Cláudio. Ele era o que tinha feito convite ao amigo Milton. Quando a jornada de trabalho do Cláudio terminou, ele e o Milton foram com as duas na casa em que ambas trabalhavam e moravam no emprego. Uma edícula nos fundos da residência dos patrões.
A festa foi ótima. Duas belas pizzas, vinho champanhe. Afinal eles estavam com duas “minas” de fina estampa. A coisa foi tão boa que todos os quatros dormiram até o dia seguinte às sete horas da manhã do domingo. Aí não havia jeito de eles saírem, porque as crianças brincavam no quintal de bicicleta ou jogavam bola. Então ficaram os dois presos no quarto até a noite quando o casal resolveu sair para jantar fora. Cláudio estava de folga aquele domingo, mas o Flamengo da Vila Olímpia sentiu muito a falta de seu zagueiro central. Somente na segunda feira no bar do celestino é que ficamos sabendo porque o Miltão não tinha ido jogar.
Mas a coisa degringolou quando as mulheres casadas e, mal casadas, entraram na jogada dos motoristas. Aí a coisa ficou feia. Tinha alguma ou outra que já era manjada por colocar chifre no marido. Mas outras eram tidas de alta respeitabilidade no seio do bairro. E elas também ficaram assanhadas pelos motoristas. E para te falar a verdade tinha cada mulher que valia a pena correr risco.
Bem os motoristas estavam gastando o que tinham de bom para elas. Mas um dia alguém viu uma que não estava nos prognósticos de chifrar marido foi logo contar para o traído.
Um gostosão cuja mulher trabalhava fora, teve a infeliz idéia de levar a amante na casa dele. Uma armadilha feita pelo marido traído foi feita e a polícia pegou em flagrante adultério, levando ambos para a delegacia. Uma vizinha que presenciou a cena de prisão dos amantes ligou para a esposa do motorista, que morava por ali mesmo e um tremendo frege aconteceu na delegacia. A amante apanhou do marido e o motorista apanhou da mulher, e teve um tremendo sarro dos policiais civis e da força pública em cima de ambos. Já que a merda estava feita os amantes se transformaram em marido e mulher, oficiosamente. Pois ambos eram casados e não havia ainda o divórcio. Tiveram dois filhos até onde eu soube. Viviam felizes. Ela pelo menos elogiava bastante seu novo marido. Disse a umas amigas que tinha tido alguns na cama, mas como esse motorista jamais encontraria outro.
Isaura que morava no miolo das mulheres desajustadas, era outra que andava se enroscando com os motoristas da ABC. Aliás, a bem da verdade com um apenas. O Cláudio, que por sua vez não fazia o mesmo que ela. A que aparecia na frente dele ele papava. Isaura, não tinha como repreender pois o amava, como dizia abertamente.
Por ironia do destino Isaura era esposa também de motorista de ônibus. Só que da CMTC, o Alcebíades, homem pacato que na certa tinha sua sexualidade na base do papai e mamãe, coisa que Cláudio detestava. Era de ir para o tudo ou nada. Coisa que maravilhou Isaura, pois a pedido da mãe casou virgem e com quase trinta anos, passando o maior sufoco todos aqueles anos na base da siririca. Quinze anos de casada e ouvindo das amigas que sexo não era aquela formalidade, e que coisas mais gostosas se fazia e, não com o marido, ela se jogou nos braços de Cláudio que deu conta do recado dado pelas amigas de infortúnio.
Cláudio era o verdadeiro cafetão tirava o que podia dela. Já que as outras com quem tinha colóquio, eram empregadas domésticas, portanto, duras de grana.
Isaura tirava da boca dos filhos para comprar roupas para Cláudio. Até camisas dele ir trabalhar ela lavava. Para completar ainda pagava o carnê das lojas Exposição-Clipper. Todo mundo na Vila Olímpia sabia da história menos Alcebíades. Tinha gente que não acreditava que ele não sabia. Pois andava sempre quieto e de cabeça baixa. Coisa de corno manso.
Por ironia do destino ele em toda sua quietude no único dia de descanso que era o domingo, em que ia à missa, e depois se debruçava no muro de sua casa, olhando o movimento da rua e as crianças brincando ainda era confundido pelo “seo” Manoel, como ele estando de olho na dona Antonia, esposa de Manoel. Alcebíades era praticamente expulso do próprio muro de sua casa coisa que ele fazia para não ter encrenca com vizinho. Até quando isso foi, não sei, porque se mudaram de lá tempos depois.
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