Como no poema do Drummond, também no caminho de Mauro Silva havia uma pedra. Ou várias. Não aquelas que nos causar dores terríveis como os cálculos renais ou as que nos dão na vesícula; nada a ver com aquelas de sólida formação que sustentam edificações e pavimentam ruas; e muito menos com aquelas, raras e preciosas, que alimentam as esperanças dos que ambicionam fortuna e que satisfazem vaidades.
Como poderia haver flores ou espinhos, foram outras as pedras que o fizeram se perder. O fato é que havia uma pedra. E o nosso simplório amigo, mulato de robusta têmpera, marcador implacável, duro sem ser desleal, no nosso sagrado futebol de sábado (por isso Mauro Silva, em homenagem ao jogador campeão do mundo com quem se assemelha fisicamente. Seu nome verdadeiro, por respeito, dou-me o direito de resguardar), não soube como contorná-la, como driblá-la.
E em um embate desigual, infelizmente, venceu a pedra.
Chaveiro competente na Rua Tomaz Gonzaga, na velha Liberdade, em uma portinhola espremida entre restaurantes de comida japonesa, Mauro Silva sabia da arte de abrir portas, de vencer o emperramento teimoso de portões, das janelas, dos armários, dos veículos. Era uma espécie de anjo da guarda para os descuidados, para os esquecidos. Abria também um sorriso largo que desarmava fácil os corações lacrados, os espíritos enclausurados pelo medo e pela solidão urbana.
E de repente Mauro Silva viu-se, ele próprio, sem saída.
Por algum desgosto ou decepção dos quais não temos conhecimento, em um instante de vacilo, fraquejou na vontade e cedeu aos apelos ilusórios do crack. E perdeu no labirinto perverso das ruas o brilho dos seus olhos, o seu sorriso amigo, a sua gentileza, a sua força e simpatia, a garra que costumava demonstrar em campo.
Perdeu o rumo, o rapaz que tinha apelido de craque.
Perdeu-se Mauro Silva porque no seu caminho, infelizmente, havia essas malditas pedras.