Travessura de São Pedro e São Jorge

O carrancudo domingo, 17 de maio, foi realmente um dia atípico. Conversei pela manhã com um amigo residente ao lado da Rua Pedra Azul que corta o Parque da Aclimação e onde sempre sonhei residir. Era o pequeno Central Park de nossa infância. Mais precisamente após a metade da década de 60 em um tempo mais feliz. Na época não existiam grades e caminhávamos tranquilos e despreocupados contornando o lago. Nossa maior travessura consistia em pegar peixinhos e refrescar os pés cansados de tanto andar.
 
Retornando ao mundo real, enquanto os corintianos e os "não coringuentos" viam pela televisão o imponente estádio "Invejão" em sua segunda inauguração, agora em partida oficial do Brasileirão, o céu escurecia e ventava forte. Ameaçadoras nuvens, os tais cumulus-nimbus (que sempre levam a culpa por alguma ocorrência anormal), anunciavam uma providencial e benfazeja tempestade. Mas São Pedro se equivocou ao abrir o registro fora dos locais mais carentes de água e aplicou um "pedala Robinho" no INPE e demais institutos de previsão metereológica.
 
E o granizo despencou como se fosse inocentes bolas de gude ou pingue-pongue. Divertiram crianças e amassaram veículos (para alegria das funilarias, os habilidosos martelinhos de ouro). De forma inclemente, as pedras de gelo fustigaram principalmente a região desta aprazível ruazinha citada no início. À primeira vista, pareciam cenas do inverno rigoroso no hemisfério norte. Danificaram a vegetação e literalmente expulsaram muitos peixes do lago.
 
Enquanto isto, São Jorge deve ter ido auxiliar São Pedro nas travessuras, relaxando a vigilância sobre o simpático time do Figueirense, lanterna do campeonato que fez chover no chope dos torcedores do timão. Estas mudanças climáticas que estão virando tudo pelo avesso deveriam nos fazer refletir mais seriamente. Anos passados, a dupla Sá & Guarabyra entoava que "o sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão". Estamos irreversivelmente próximos desta apocalíptica profecia.
 
No entanto, prosseguimos apáticos e insensíveis diante da nua e crua realidade. As lições já sabemos de cor, só nos resta aprendê-las; vã esperança, não mudamos uma vírgula sequer em nosso predatório e egoísta comportamento. Quando digo "nós", me refiro às autoridades e instituições que têm a caneta e o poder nas mãos.
 
Por alguma razão, me lembrei de um singelo texto que li e decorei e que constava no material didático do Centro de Formação Profissional "José Gomes". Tratava de uma hipotética carta que o planeta Terra (na condição de locador) enviava aos seus habitantes inquilinos. O conteúdo é bem ilustrativo e nos obriga a meditar:
 
Carta ao inquilino:
 
Gostaríamos de informar que o contrato de aluguel que acordamos há bilhões de anos está vencendo. Precisamos renová-lo, porém temos que acertar alguns pontos fundamentais.
 
1. Você precisa pagar a conta de energia. Está muito alta! Como você gasta tanto?
 
2. Antes eu fornecia água em abundância e hoje não disponho mais desta quantidade. Precisamos renegociar o uso.
 
3. Por que alguns na casa comem além do suficiente e os outros estão morrendo de fome se o quintal é tão grande? Se cuidar da terra vai ter alimentos para todos.
 
4. Você cortou as árvores que forneciam sombra, ar e equilíbrio. O sol está quente e o calor aumentou. Você precisa replantá-las urgentemente.
 
5. Todos os bichos e as plantas do imenso jardim deveriam ser cuidados e preservados. Procurei alguns animais e não os encontrei. Sei que quando aluguei a casa eles existiam.
 
6. Precisam verificar que cores estranhas estão no céu! Não vejo o azul!
 
7. Por falar em lixo, que sujeira “hein”!? Encontrei objetos estranhos pelo caminho! Isopor, pneus, plásticos…
 
8. Não vi os peixes que moravam nos rios e lagos. Vocês pescaram todos? Onde estão?
 
Bom, é hora de conversarmos. Preciso saber se você ainda quer morar aqui. Caso afirmativo, o que você pode fazer para cumprir o contrato? Gostaria de ter você sempre comigo, mas tudo tem um limite. Você pode mudar? Aguardo respostas e atitudes.
 
Sua casa – a Terra.