Uma vida de luta e trabalho – Parte I

A minha jornada de trabalho começou bem cedo, aos 11 anos: o primeiro emprego foi na casa do Sr. Miguel, alfaiate, após as aulas no grupo escolar eu almoçava e na parte da tarde ia à alfaiataria, minha função era varrer o salão, colocar carvão no ferro de passar e molhar os tecidos destinados à confecção dos ternos (naquele tempo ainda não produziam tecidos pré-encolhidos); no restante do tempo eu ficava costurando um pedaço de tecido para pegar prática no ofício (foi bom porque até hoje quem faz as bainhas das minhas calças sou eu). 
 
Tudo ia bem até o dia em que eu perdi uma nota de Cr$ 20,00 que o Sr. Miguel havia me dado para pagar o calceiro (parei no campinho para ver a turma jogando bola e o bolso era raso), resultado: meu pai teve que arcar com o prejuízo, o alfaiate resolveu me dispensar, pois alegou que eu não tinha "responsabilidade"!
 
Fiquei três dias sem fazer nada, no quarto dia minha tia Gina veio em casa informando que na oficina do sobrinho dela estavam precisando de menores para serviços de limpeza, comprar material na loja de ferragens e ajudar o pessoal nos serviços gerais da oficina, o proprietário era o Sr. Edgar Galvan Duarte e sua esposa a Dona. Nair; a oficina ficava na Rua Leais Paulistanos, aqui no Ipiranga. 
 
O serviço era duro, pois tinha que ficar segurando as peças que o João e o Xisto soldavam com o maçarico de acetileno, precisava também manter acesa a forja, lá também tive um problema, sem autorização liguei o esmeril e comecei a esmerilhar um pedaço de ferro, resultado: sem óculos de proteção uma fagulha entrou no meu olho esquerdo, foi um sofrimento, pois tive que ir à farmácia para tirar o cisco e por alguns dias usar um colírio, após isso o Sr. Edgar resolveu me dispensar, pois como eu era menor ele temia que pudesse me acontecer alguma coisa mais grave.
 
Mas não tive tempo de ficar parado, logo na semana seguinte meu pai trouxe o Diário Popular para que eu procurasse algum anúncio de emprego para menores, nessa altura eu já estava com 13 anos, consegui vaga na firma Excelsior Elétrica Importadora, ficava na Rua do Riachuelo em frente ao prédio da antiga R.A.E. (Repartição de Águas e Esgôtos), onde a gente pagava as contas de consumo de água. 
 
Lá o proprietário era o Sr. Salvador Cutolo Caetano, pessoa boníssima que me ensinou muita coisa, mas eu ganhava muito pouco, meu trabalho era varrer a loja, arrumar a mercadoria nas gavetas, espanar os lustres e globos expostos e, de vez em quando, eu ia com o eletricista da loja ajudar na colocação dos lustres na casa do cliente; solicitei um aumento de salário, o Sr. Salvador alegou que não podia pagar, resolvi procurar outro emprego, enquanto não arrumava continuei na loja.
 
Um dia o meu tio Zézinho encontrou com um amigo de nome Djalma, que era gerente de uma camisaria. No bate-papo meu tio ficou sabendo que a loja estava precisando de um menor para serviços gerais. Resolvi ir falar com ele no horário de almoço (a camisaria se chamava Intercil e ficava na Rua Benjamin Constant. A loja existe até hoje, mas atualmente está na Rua Dom José de Barros), ali começava uma nova etapa, prometo continuar futuramente a história de lutas e trabalho…