O misterioso ídolo global

Há tempos, quando a TV Globo ainda engatinhava por São Paulo e tinha seus estúdios na Praça Mal. Teodoro, meu irmão lá trabalhava no setor técnico.
 
Certo domingo, bem me recordo, devido a motivos de escala de programas, teve ele que dobrar o serviço prevendo permanecer nos estúdios até a madrugada próxima, e como estávamos em uma época fria do ano se prenunciava um amanhecer bem paulistano, daqueles tempos frios e garoentos.
 
Meu irmão me telefonou pedindo para que lhe portasse um agasalho quente, e alertou-me para algo muito importante. Devido ao programa do Chacrinha, a entrada da TV Globo estaria congestionada de pessoas. Eu deveria me dirigir para uma porta secundária por onde entravam os funcionários e muitos artistas que tentavam fugir do aglomerado, localizada a cerca de 50 metros à esquerda da entrada principal e onde o responsável pela abertura da porta já estaria informado de minha ida e qual a senha para que abrissem a porta para adentrar aos estúdios.
 
Lá fui eu, orgulhoso, dirigindo o fusquinha de meu pai; cheguei à praça Mal. Deodoro, estacionei e me excitava a possibilidade de encontrar algum ídolo artístico, alguma chacrete e até mesmo o Chacrinha, porque não?
 
Conforme alertado, havia mais de uma centena de pessoas na porta principal. Eu, tranquilamente, cruzei a praça e me dirigi para a porta secundária. No instante que parei à porta chamou-me a atenção uma gritaria histérica proveniente da entrada principal, mirei nessa direção e vi um grupo de fãs comandados por um berrante virtual olhando para a porta secundária e iniciando um verdadeiro estouro de boiada de mais de uma centena de pessoas em direção à porta onde me encontrava. Eu olhei ao redor, procurando a causa da corrida descomedida, porém não vislumbrei nenhuma pessoa além de mim, eu próprio.
 
A turba aproximava-se descomedida, urrando, e eu à procura da misteriosa razão para tal e nada, vivalma me cercava.
 
Antes que pudesse entender o que se passava, fui cercado, arranhado, “massageado” da cabeça os pés, de frente e de atrás, de um lado e outro, minha camisa, aquela camisa domingueira, que eu tanto gostava, perdeu rapidamente todos os botões e se rasgou, estavam me sufocando quando finalmente a porta salvadora da Globo se abriu e algumas mãos piedosas me puxaram para dentro do prédio.
 
Quase sem fôlego, prostrado, quase desconstruído, enquanto tomava um copo de água, perguntei aos seguranças se sabiam a razão da agressão. Sorrindo, simplesmente responderam:
– Isto é normal de ocorrer quando um ídolo chega à emissora ou quando confundem alguém com um ídolo.
– Não, nunca fui um misterioso ídolo.
 
Só restou o consolo de ter sido confundido com alguém, quem seria? Não sei.