O saudoso Sr. Américo

O outro dia, lendo uma crônica do Luiz Saidenberg intitulada “Duelo na Terceira Idade”, veio-me na lembrança um velho amigo que já não está mais entre nós, pois já faleceu há alguns anos. Ele era mais velho do que eu, mas um homem simples e bondoso.
 
Ele tinha uma deficiência na fala, e se alguém o deixasse nervoso aí a coisa ficava ruim, pois a gagueira o dominava e não havia meio de alguém entender o que ele queria falar.
 
Ele era um homem extremamente forte, e como tal, era mecânico dos velhos bondes de São Paulo naquela estação da Rua Rubino de Oliveira, com a Avenida Celso Garcia, no bairro do Braz. Trabalhava no turno da noite, como não poderia deixar de ser, porque era o horário em que os bondes se recolhiam na sua maioria.
 
Ele trabalhou naquela estação até os bondes serem retirados de circulação, aí ainda por pouco tempo ele foi transferido para uma garagem de coletivos da CMTC, mas logo completou seu ciclo. E por tempo de trabalho se aposentou. Comprou um pequeno sitio em São José do Rio Preto e só de vez em quando vinha matar as saudades da cidade grande. Ele era descendente de italianos.
 
Em uma dessas suas rápidas visitas, ele andando pelo centro, foi abordado por trás por um batedor de carteiras que enfiou a mão no seu bolso para roubar-lhe a carteira (que engano esse homem cometeu). O Seu Américo, apesar da idade, era muito ágil, e agarrou a mão do ladrão e deu uma torção derrubando-o ao solo, ao mesmo tempo em que pisava no seu ombro, quase arrancando o braço dele. E aí como ficou nervoso a gagueira tomou conta dele. E dizem as testemunhas que foi duro convencê-lo de largar o braço dele e tirar o pé do seu ombro para que a polícia o levasse. 
 
Esse homem pensou que o velhinho seria presa fácil, mas que surpresa desagradável ele teve, e com certeza dali em diante pensou duas vezes antes de molestar alguém da terceira idade. Sempre que me lembro desse episódio dou inúmeras gargalhadas.
 
Ele faleceu lá no sítio de um ataque do coração, que Deus o tenha com muita luz.