Minha querida mamãe

Quantas saudades da minha mãe. 
 
O tempo passou tão depressa. Éramos uma família bem humilde, morávamos em um cortiço do Brás, a rua era a Caetano Pinto, donde nasci. Minha mãe era uma mulher de uma fibra fantástica. Meu pai, a princípio, era caminhoneiro e saia de viagem estrada afora e às vezes passava mais de 20 dias sem termos notícia dele. Ela, para aliviar esses momentos difíceis, ajudava no nosso sustento e costurava para uma fábrica de roupas que ficava na Rua Jorge Azem, ao lado da Rua 25 de Março; minhas duas irmãs mais velhas ajudavam na costura. Lembro que íamos caminhando ate lá e trazíamos o material nos braços até em casa. Eram calças, paletós e casacos e elas faziam o serviço de acabamento como as barras, os caseados e fixar os botões.
 
Como era uma caminhada longa, resolvi construir um carrinho de rolimã. Aí a coisa ficou mais fácil e eu carregava tudo nele. O tempo foi passando, meu pai adoeceu e teve que deixar a estrada. Foi quando ele comprou um táxi com a ajuda de seu irmão mais velho e passou a ser taxista em São Paulo, com isso as coisas melhoraram e ela já não precisava trazer tanto serviço para casa. Meu pai sempre reservava os domingos para nós. Quase todos os fins de semana era uma viagem diferente, ainda vou contar algumas histórias desses passeios. 
 
Nessas alturas minhas irmãs já trabalhavam na São Paulo Alpargatas, na Rua Almeida Lima, e ela fazia as marmitas para eu levar para as manas. Quando chegava o dia das mães eu sempre procurava dar-lhe um presente que facilitasse seus afazeres, lembro que como ela cozinhava em fogão a carvão eu comprei com minhas economias uma espiriteira Primus, muito conhecida nesses tempos, que era à pressão e usava querosene como combustível. E senti a sua alegria com o abraço e o beijo que ela me deu. Em uma outra ocasião, também em um dia das mães, foi um liquidificador Walita que era novidade para nós, os pobres.
 
O tempo passou e em 1960 meu pai faleceu e foi depois disso que resolvi imigrar para os Estados Unidos. E desde que cheguei aqui enviava a ela todos os meses uma mesada que vinha a ser como um pouco mais de um salário mínimo.
 
Eu sempre dizia a ela depois que vim para os Estados Unidos que sempre que ela sentisse saudades dos netos que viesse me visitar e assim ela fez por quatro vezes e isso me deixou muito feliz, pois pude fazer que ela conhecesse e convivesse com os três bisnetos e os netos que ela viu nascer. Quando ela ia completar 90 anos em setembro de 1995, nos estávamos programando uma festa para ela e 20 dias antes ela teve um problema na vesícula e uma das pedras obstruiu um canal do pâncreas e ela teve uma pancreatite. E com isso ela veio a falecer. 
 
Quando soube do seu falecimento fui para o aeroporto e consegui um voo noturno e foi a viagem mais longa que fiz na vida, foram 8 horas chorando. Retardaram o sepultamento por duas horas para que eu pudesse me despedir dela com uma dor enorme. Que Deus tenha sempre sua alma com muita paz e muita luz.