Personagens do Centro

Trabalhei no Centro por alguns anos, nas décadas de 70 e 80. Era comum a aglomeração de pessoas em torno de algum show de rua. Alguns personagens estavam lá todos os dias. Na Barão, a estrela era o “Diabo Loiro”, figura folclórica que apareceu em diversos programas de TV. Sua especialidade era andar e deitar em cima de garrafas quebradas e outros objetos afiados. Nunca o vi machucado, nem arranhado.
 
Acho que ele foi o predecessor do conhecido Super Maluco. Um vendedor de bilhetes de loteria, tinha seu bordão: "Borboleta 13, vai dar o 13." Repetia por horas. Anunciava sempre o mesmo número, todos os dias, o dia inteiro.
 
Na Praça do Patriarca, em frente ao Unibanco, ficava um senhor com um objeto na boca imitando gatos. Ficou por lá muitos anos. Falando de gatos, um rapaz andava com um saco e um pedaço de pau. De repente ele começava a bater no saco e imitar o grito de gatos sendo espancados. Na primeira vez que vi pensei ser real e que ele fosse muito cruel. Era tudo brincadeira para vender o objeto que simulava os gritos dos bichanos.
 
Na Praça da República, em frente ao Bradesco, uma senhora ficou durante muitos anos vendendo pentes. Não gritava, não anunciava. Apenas esperava. Em março de 1981, voltando do primeiro show do Queen no Brasil, passei pela República a caminho de casa e ela ainda estava lá com sua pequena barraquinha, em silêncio. Detalhe: já era madrugada.
 
Certa vez por volta das 9h da noite, saí da Mesbla e ouvi um rapaz com uma voz lindíssima, cantando músicas clássicas e com uma caixa de sapatos ao lado recebendo ofertas de quem tinha seus ouvidos contemplados com seu talento. Alguns anos depois ficou muito famoso. Era Edson Cordeiro, hoje morando na Alemanha.
 
Falando de música, como não lembrar-se do talentosíssimo flautista Charles, que junto com seu pai e irmãos tocava chorinhos, MPB e clássicos, principalmente na Barão de Itapetininga. Infelizmente, parece que ele está perdendo a luta contra o crack.
 
Meu irmão cita um personagem que imitava a Xuxa na região da Praça do Correio com uma pequena caixa de som e um microfone, e que cantava durante as greves juntamente com a Banda do Peru. Durante uma greve dos bancários, a turma do sindicato direcionou as potentes caixas de som para o alto do prédio da sede da Nossa Caixa, na XV de Novembro, e ele cantou “Maria Helena”, de Altemar Dutra, em clara provocação, à diretora de RH da Nossa Caixa, que se chamava Maria Helena; fato que lhe rendeu uma crônica de Lorenço Diaferia que classificou a interpretação como “inesquecível”.
 
Na Dom José de Barros, quase esquina com a Sete de Abril, um músico alemão e seu violino fazia a alegria de quem gostava de boa música. Bach, Beethoven, Chopin, etc. Impossível enumerar todos eles.
 
A vida me pregou uma peça e faz muitos anos que não circulo pelo Centrão, mas imagino que figuras como essas não existam mais.