Bailes de formatura

Na época (graças a Deus – no meu modo de pensar) não existia os bailes funk, imperando nos salões os sons dos boleros, samba e o rock and roll. Deixando do lado o rock, dançávamos juntinho com a garota e dependendo da intimidade bem agarradinhos. Se a música fosse bem lenta, nós nem saíamos do lugar. 
 
No primeiro ano ginasial, formava-se uma comissão para arrecadar fundos para esse tão esperado baile. A principal fonte de renda eram os bailes aos finais de semana feitos na garagem da casa de um aluno. Cobrava-se uma pequena quantia para entrar e vendiam-se bebidas, que na época eram as famosas “Cuba Libre” (Coca-Cola, rum e limão) e Hi-fi (vodka e refrigerante de laranja Crush). Cerveja na época nem pensar. O maestro encarregado do som era um dos alunos que ficava trocando os famosos “LPS” nos toca disco “Pick up” daquele tempo. Tinha-se até um apelido sobre essa orquestra intitulada “Pick Up e seus negrinhos” (negrinho, referia-se a cor dos LPs). 
 
O meu amigo Edson Bras estudava no Colégio Ascendino Reis que fica na Rua Tuiuti no Tatuapé, onde ele fazia parte da comissão e nos finais de semana não perdíamos nenhum baile conhecidos como “baile de fundo de quintal”. Dos colégios Estaduais da Zona Leste, o baile de Formatura mais esperado era o do Ascendino Reis, com convites vendidos até no câmbio negro. O outro colégio famoso por seus bailes era o “Caetano de Campos”, que fica no Centro de Sampa, ao lado da Praça da República. Esses convites além de serem difíceis de se arrumar, tinha peso de dólar, para nós do Colégio de Elite. 
 
Começaram a exigir como traje para os homens o “smoking”, que para mim o custo não era lá para o meu bolso, e teria que aposentar o meu famoso terno preto feito pelo alfaiate Sr. Shimada, lá da Vila Mariana. A mamãe Helena ficou encafifada do porque de eu estar recusando de ir a esses bailes, e justifiquei o traje especial que estavam exigindo. 
 
Conversando com suas amigas no seu trabalho, uma delas levou um smoking do filho para ela ver como era confeccionado. Não deu outra, com sua habilidade de costureira, transformou meu terno preto em um lindo smoking, sendo admirado e até cobiçado pelos meus amigos. Passou a ficar em lugar de destaque lá no meu guarda roupa, só aguardando os primeiros meses do ano em que começavam a surgir esses bailes. 
 
Os clubes da época eram: Clube Pinheiros, Salão do Aeroporto, Primeiro de Maio, Circulo Militar e Clube Homs. As orquestras prediletas que nós mais gostávamos eram: Pocho e sua Orquestra, Zezinho da TV e Simonetti e sua Orquestra. 
 
Os bailes eram maravilhosos, o ruim era que íamos de buzão e os bailes terminavam as 4h da matina e os ônibus só começavam a circular as 5h da manhã. Mas, para mim, todos eles valeram a pena cada minuto sentado na sarjeta aguardando o buzão. 
 
Apenas o Adilson que morava na Rua Vilela lá no Tatu (seu pai tinha uma farmácia na Rua Vilela) dirigia um carro, do pai, e nos levava. O outro era o Moisés (turco) que dirigia o carro de sua irmã. Ela era muito legal e emprestava o carro para ele dirigir. 
 
Bingo! Surgiu o tão esperado! Quatro convites do Caetano de Campos dado pela irmã do Moisés pela primeira vez em nossas vidas. Na medida certa: Eu, o Edson, o Moisés e seu melhor amigo, o Alceu, seu vizinho. O galo nem cantou e eu já estava de pé, indo levar o smoking para tinturaria do Sr. Roberto (japonês com nome de Roberto? Bem que devia ser falsificado vindo do Paraguai – risos). Demorei tanto no banho que a mamãe perguntou se eu havia tirado toda a craca (crosta de sujeira) com caco de telha (risos). Confesso que abusei do “Lancaster” (perfume da época), mas era “nóis” no baile minha gente. As 22h lá estávamos nós em frente ao Clube Pinheiros tomando um Martini doce e estranhando o movimento em frente ao portão principal do clube e o salão todo apagado. 
 
O balconista nos confidenciou que estava tendo um problema com a comissão da formatura. E foram chegando gente e mais gente, e como ninguém podia entrar, virou um verdadeiro desfile de modas em frente ao clube. As moças todas de vestido longo, cada vestido de uma cor e os pais e parentes todos de smoking (parecia festival de garçons), todos muito lindos, podendo se dizer maravilhoso.
 
 Vocês não acreditam, mas o pessoal da comissão sumiu com o dinheiro e não contrataram nada! Chegou até carro de policia para controlar os ânimos dos formandos. E o baile não aconteceu. Um a um foram indo embora, ficando para traz os quatro babões ou pés frios – não sei qual melhor adjetivo para nos qualificar naquele momento. 
 
 
“Adeus amor eu vou partir;
Ouço ao longe um clarim!
Mas onde eu for irei sentir;
Os seus passos junto a mim.”
Com esses acordes a Orquestra Simonetti se despede, agradecendo os senhores formandos e familiares…
 
Todos esses bailes tinham um horário britânico; terminavam impreterivelmente as 4h da manhã. A única noticia boa para nós naquela noite é que estávamos com o Moisés e fomos embora de carro. Já pensaram ter que ficar aguardando o buzão das 1h30min  da manhã até as 5h?
 
Enfim: Ver com os olhos, lamber com a testa…