Gosto não se discute

Tenho escrito algumas histórias que são publicadas no site SPMC, mas também tenho histórias rejeitadas, porque a equipe entende que não se refere à cidade de São Paulo. Escrevemos para o leitor, presumindo que o amigo leitor, tem sentimentos e ideias parecidas com as nossas. Se, por exemplo, falando de música, estou supondo que o leitor apreciará o texto que se refere a um estilo de música, a algum gênero musical bastante difundido e vai lhe trazer alegria e satisfação pelo fato de estar chamando atenção para alguma modalidade de canções.
 
Recentemente escrevi uma crônica que se referia ao fado. O fado, de quem os portugueses de todos os lugares do mundo gostam, claro sem unanimidade, porque unanimidade não existe, igual a uma certa cor, nem todos gostam do azul e do verde. Mas quem gosta precisa ser respeitado. Eu gosto e está resolvido. Eu não gosto dessa cor e está também resolvido. Não há discussão sobre gostos. "Gosto não se discute!".
 
Dizia que o fado sofre restrições da intelectualidade. Os intelectuais não gostam muito do fado por ser considerado um gênero que nasceu na rua, nos becos, na clandestinidade, na prostituição de ambientes frequentados por quem desejar. Pessoas, sentindo-se só, procuram ambientes que desejarem, fugindo da solidão e de lugares onde não são aceitos, não são recebidos com presteza. Há quem pague para ter companhia, porque nem sempre se dispõe de companhia que de deseja, somos “rejeitados”, coisas de humanos. Humanos têm dessas coisas que dificilmente encontramos junto aos animais. Claro os animais também discutem, brigam por seus territórios, demarcam-no, defende, protege…
 
Não estou querendo dizer que os textos que escrevemos são obrigados a publicar. Estou defendendo o direito de escrever sobre determinados temas, pensando no prazer do leitor de ficar conhecendo nossos gostos e assim poderemos influenciá-los em algum tema ou gênero, cativando o leitor para perto de nós.
 
Textos sem discussão são aqueles que falam sobre a cidade de São Paulo. Ora quantos ambientes gostosos existem em São Paulo? Quantos portugueses moram no Brasil e em São Paulo? Quantas colônias de portugueses existem na capital São Paulo? Ora penso que não dá para diferenciar os portugueses descendentes que sejam paulistanos e que não gostam de suas origens. O fado português, pois conheço portugueses aqui em minha rua, é uma música típica por qual eles são apaixonados, não só do fado, mas de cantores portugueses e nacionais. O português, como o italiano, alemão… Gostam de música, são apaixonados por músicas que lembram os “patrícios” de algum modo.
 
Portugueses em São Paulo são normalmente donos de estabelecimentos comerciais, como lojistas de confecção, roupas, armarinhos, linha, tecidos, roupas para confecção e uso pronto. São algumas maiorias donos de padarias e confeitarias, bares e restaurante, comércio de frutas de todos os tipos. São comerciantes natos e é difícil encontrar um português que seja pobre, paupérrimo, bêbado e desprezado. Eu não conheço nenhum. São muito espertos e gostam de dinheiro. Dificilmente um português é logrado, ao contrário, se não se toma os devidos cuidados logram os outros.
 
É a característica portuguesa. São donos de restaurantes que tem no bacalhau, por exemplo, o prato principal de seu estabelecimento. São afeiçoados a sua cozinha, além do bacalhau outros pratos estão na mira dos portugueses e do vinho português um dos mais apreciados ao paladar de todos. Espero que o que esteja escrevendo fique bem claro que estou defendendo o gosto do português, nossos “descobridores” vindos do além-mar.
 
Eram degredados, sentiam saudades de suas terras, de seus cantos e aldeias portuguesas, ruas e vielas, travessas e subúrbios.
 
Citei, não dava para deixar de fora a amada, Amália Rodrigues, cantora e atriz tendo se revelado ao mundo através das canções do fado, “meu fado”, como dizia. O fado em geral é triste, pois provém da alma saudosa, ou de um amor distante, correspondido ou não. O fado é a respiração do português quando se sente só e triste. Por que não dar essa alegria a ele, se ele desejar?
 
Minha pretensão ao escrever um texto no SPMC sobre o fado, juro era para despertar o interesse ao fado, para os brasileiros cá do mar, pois nós, brasileiros, somos adaptáveis aos gostos dos outros, sejam japoneses, chineses, asiáticos, ingleses, americanos… Nosso coração é grande, cabe todo mundo! Por isso é que o Brasil é procurado, buscado, querido… Até pelo nosso samba, nossa ginga, nossa alegria, nosso futebol, que encantou o mundo depois da Suécia em 1958 – primeiro título mundial de futebol.
 
Não fiquei chateado nem aborrecido com a equipe por que rejeitou o meu texto. Sempre que temos rejeição à alguma coisa é uma forma de projetarmos novas ideias e sentimentos de outra maneira e assim sermos aceitos.
 
Minhas primeiras histórias, mostra-me teu rosto, não lembro bem dos títulos, lá em 2007 se referiam aos portugueses e neles destacava a figura portuguesa, em geral bruscos, e indelicados, mas só na aparência e no modo de serem. Coitados, de um lado para outro, de navio ou de avião, até de ônibus percorrem e percorreram o mundo inteiro a procura de alegria e de felicidade, sobretudo sobrevivência.
 
Sinceramente, como os conheço bem, tenho meus amigos portugueses, apreciadores de uma boa conversa e boas piadas, não estão nem ai para aquelas nossas piadas denegridoras de suas imagens. Eles sabem o que são trabalhadores, geralmente honestos e empreendedores. Duvido que ajam pessoas que não conheçam nenhum português. Português é cidadão do mundo, conquistaram seu lugar, admiro-os, respeito-os aprecio-os. Fale do fado para eles? Vão dar boas risadas e boas gargalhadas, está no sangue. Se os portugueses têm suas preferências, como não teriam os paulistanos? Mas falar do gosto dos paulistanos, já é outra história.
 
Era isso.