Próximo à Estação Pinheiros do metrô, representantes de uma ONG utilizando coletes estampados com uma fase alusiva a crianças solicitavam auxílio aos passantes – dinheiro, claro.
Se os pedintes estavam sendo bem sucedidos ou não, isso não vem ao caso, o que vem ao caso é que a poucos metros dali, sentada na calçada, uma garota – 18 anos no máximo – amamentava um bebê. Ambos em andrajos. O nenê faminto sugava afoitamente, mas era bem provável que nada líquido encontrasse – a fome seca a fonte.
Não era possível não olhar; era impossível não ver, mas essas possíveis impossibilidades aos “benfeitores da humanidade” nada diziam. Ali havia uma criança – eles se preocupavam com outras longínquas, inacessíveis. Shakespeare, através de Falstaff na peça Henry IV, diz que por um copo de madeira e uma perna de porco fria – por tão pouco – vendestes tua alma. Assim como eles, passei ao largo. Todos atrás de sol na penumbra, emaranhando-nos na multidão vazia.