Tínhamos vendido a nossa casa no Jardim Paulista, uma casa isolada, grande, numa rua de lindas residências. Procurávamos um bairro parecido com o nosso, residencial, calmo, e com muito verde. Tarefa difícil, mas tínhamos que tentar, e nos mudar para entregar a casa no prazo contratado. Arrumamos uma imobiliária e iniciamos a procura dando preferência à zona sul, região mais próxima do bairro que morávamos. Todos os dias saíamos e rodávamos com o corretor, que nos levava exatamente a locais e casas que nada tinham a ver com o que estávamos procurando. No final do dia era um desânimo e o prazo de três meses que parecia suficiente ia se esgotando, sem que conseguíssemos encontrar o que procurávamos. Não era uma tarefa fácil, queríamos um bairro estritamente residencial, semelhante aos Jardins, uma casa ensolarada, face norte, e num bairro semelhante ao que estávamos acostumados. O corretor não acertava, nos levava onde não queríamos e nos mostrava o que não desejávamos. Foi quando exaustos e já achando que teríamos problemas sérios com multas, do não cumprimento de prazo, resolvemos sair por conta própria. Fizemos uma relação dos bairros residenciais da região que eram do nosso interesse, levantamos as ruas e começamos a percorre-las. Nos concentramos nos bairros Vila Nova Conceição, Vila Olímpia, Moema e Brooklin. Rodamos por cada um deles, cruzando as ruas e procurando placas de casas a venda. Tínhamos um limite do valor da compra, e sabíamos o que estávamos buscando. Finalmente, num certo fim de tarde ensolarada, sozinha, entrei na rua que se tornaria a da minha casa. Três sobrados estavam vagos e a venda, bom terreno, embora geminados de um lado, a rua era exatamente o que estávamos procurando, residências cuidadas, muitas árvores e bem ao lado da Sociedade Hípica Paulista, um clube de hipismo que ocupa até hoje uma área enorme gramada, cercada por grandes árvores. Não tivemos dúvidas, o local era realmente privilegiado, visitei as três casas a venda e me decidi pela mais clara, sol pela manhã e a tarde, certeza de saúde para meus filhos. Levei a notícia à família. Isso foi em 1967, a rua não tinha iluminação pública, mas para compensar nos inúmeros terrenos sem construção e calçadas existiam muitos eucaliptos, altos e majestosos que ofereciam ar perfumado e puro aos moradores do bairro. Não era só na nossa rua que existiam esses grandes eucaliptos, era uma das espécies mais presente em todos os terrenos e calçadas do bairro. Compramos a casa e nossos filhos cresceram nesse bairro, com características próprias. Dizem que quem mora aqui muda de casa para apartamento ou de apartamento para casa mas não de bairro. Com o passar dos anos – e 40 já se foram – ainda acordamos com o barulho dos passarinhos. São periquitos, fielmente aos pares, fazendo algazarra, rolinhas na tarefa infindável de construir ninhos, o canto melodioso do sabiás laranjeira e muitos outros. A Sociedade Hípica Paulista ainda nos garante uma parte do ar puro que respiramos, mas os eucaliptos um a um foram sendo cortados, os dos terrenos para a construção das casas, os das calçadas sabe lá porque, talvez por determinação de alguma dona de casa irritada por precisar varrer as folhas no outono. Nas praças, numerosas no nosso bairro, agora reformadas e mantidas por construtoras, as árvores frondosas foram cortadas e substituídas por espécies pequenas e as sombras não existem mais. Dizem que tudo estava infestado por cupins e oferecia perigo. Temos também um bosque, na rua Padre Antonio José dos Santos, que no passado foi tombado pela Prefeitura atendendo a movimento de estudantes da Escola Estadual Oswaldo Aranha contra a derrubada das árvores para a construção de grande empreendimento. O bosque continua lá, estoicamente em meio a prédios, mas acreditem, em dois fins de semana recentes a rua foi interditada e um aparato gigantesco arrancava árvores seculares. Por todo o bairro, nas calçadas, um número enorme de tocos das árvores cortadas, marcas tristes de onde estiveram um dia. Tento compreender o que não é compreensível. É difícil pensar que em alguns anos, pouco restará do nosso Brooklin verde de antigamente.
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