Depois de enviuvar, meu avô materno foi morar no Itaim Bibi com a filha mais velha, minha saudosa tia Elvira. E lá ia eu toda semana visitá-lo, porque depois de ser criada na casa vizinha à dele, não conseguia ficar longe muito tempo. Meu avô tinha uma memória prodigiosa! Nascido em Itapira, passou a maior parte de sua longa vida em São Paulo, mais precisamente na Vila Prudente. Mas, ele era aquilo que costuma-se chamar "cidadão do mundo", e eu diria, cidadão deste "mundo" chamado São Paulo.
Minha alegria era ir para o quarto dele e deixar que me mostrasse seus "tesouros", que carregava consigo onde quer que fosse, através dos anos, das mudanças, e de todos os sofrimentos que enfrentou nos 90 anos que passou neste mundo. Tesouro esse que cabia numa velha caixa de sapatos… Um desses tesouros era sua "habilitação" de charreteiro, porque lá pelo início do século XX era esse o principal meio de transporte em Sampa. Depois, com a chegada do automóvel em escala, exibia ele, orgulhoso, sua habilitação como "chofer de praça". Dirigia um belo Ford Bigode, preto e reluzente. Trabalhou também como motorista particular para família ricas e tradicionais, inclusive para o famoso ator Pagano Sobrinho.
E havia as fotos (que herdei). É incrível como uma única foto pode nos contar muito sobre uma época, um lugar e sobre as pessoas!
Ele foi também caixeiro-viajante e cortou todo o interior do Estado viajando de trem. Nunca mais encontrei alguém que conhecesse nossa terra tão bem quanto ele. Não havia rua da cidade que ele não conhecesse… era um verdadeiro guia de ruas ambulante!
Tenho saudade do meu querido vô Manoel e das histórias que ele me contava tendo sempre como pano de fundo a São Paulo que ele amava e conhecia tão bem. Em parte por sua influência, aprendi a olhar para nossa cidade e encontrar nela as belezas que ele me descrevia naquelas adoráveis tardes que passávamos juntos. Mergulhada no seu "tesouro", que me remetia ao passado ao mesmo tempo difícil e glamuroso desta cidade, aprendi que ela é única em todo mundo.
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