Memórias maternais

Início dos anos 60, eu além de aluno regular do Colégio Comercial Frederico Ozanam, naquela época ainda na Praça Franklin Roosevelt 129, era também o seu Diretor Artístico e, como tal, estava sempre promovendo shows com o pessoal do GATO (Grupo Artístico e Teatral Ozanan).
Estávamos chegando ao mês de Maio, e nesse mês, além do meu aniversário, comemora-se também o dia das mães.
Naquele ano, o dia das mães teria de ser comemorado com um belo show, dei inicio às tratativas, recebi autorização do Professor Negrão para o show e solicitei o empréstimo do auditório do vizinho (Colégio Porto Seguro), um auditório lindíssimo com entrada pela Rua Gravataí.
Empréstimo concedido sob os auspícios da política de boa vizinhança, comecei a selecionar os esquetes e os números musicais que fariam parte do espetáculo. O nome do show ficou sendo “O SHOW SHOWMOS NÓS”.
Convoquei os Jograis 9 de Julho para se apresentarem. Eram do Ozanan e, mesmo com todo sucesso que já gozavam e da agenda sobrecarregada, atendiam aos nossos convites com a maior boa vontade.
Resolvi, então, que faríamos uma homenagem a todas às mães. Escrevi um poema para ser declamado em cena aberta e para receber a homenagem estariam no palco minha mãe e a mãe de um grande amigo, o gordo e negro Arnaldo Mathias Serafim (o Bolão) e este que lhes conta esta estória seria o declamante.
Tudo preparado, o show devidamente ensaiado. Chega o grande dia.
Vou para o Teatro mais cedo, entro no palco, paro, penso e caio na real. Não iria conseguir fazer a homenagem. Seria muito grande a emoção de homenagear a todas as mães na figura de duas mulheres que eu amava de paixão.
Aguardei uns instantes, tomei fôlego, chamei o Bolão e avisei, decora o texto das mães que você vai declamar em cena (como é bom ter o poder nessas horas cruciantes).
O Arnaldo olhou para mim, não falou nada, pegou o texto e começou a recordar, pois decorado ela já tinha há muito tempo.
O Show foi realmente mais um sucesso e durante a tão esperada homenagem, enquanto o Bolão declamava, o autor do texto e Diretor Artístico da Escola se debulhava em lágrimas nas coxias.
Para arrematar esta memória quero transcrever o poema que serviu para homenagear as mães naquele dia e em todos os anos a partir dali.

DESTE MUNDO O QUE SERIA?

Mãe que é mãe,
é a mãe que a gente tem.
Sorriso nos lábios,
olhar de ternura,
fortuna maior do rico e do pobre.
Se contássemos fio por fio
de seus cabelos,
veríamos o branco do cansaço
causado por nossas travessuras.
E ouviríamos, ainda,
os pitos e avisos
-"menino, venha p'ra cá…"
-"não faça isso moleque…"
-"Olha que te dou uma surra…"
Ah mamãe…..
por mais que você ralhasse
por mais que você gritasse
e quisesse parecer brava,
eu te juro, nunca vi
nunca mesmo consegui;
ver raiva ou ódio em tua face.
Via somente mãezinha,
amor, bondade, harmonia,
sonhos de doce poesia
disfarçados em caretas.
Careta p'ra quando eu
chegava em casa rasgado,
careta p'ra quando sujo,
eu chegava bem cansado.
E aí, mamãe você dizia:
-"Toma jeito ou apanhas,
te dou uma surra moleque
que nunca mais te assanhas…"
E você batia…
e eu… eu chorava,
chorava de dor doída.
mas ao ver que você
também chorava mamãe,
eu calava e sorria
só p'ra não te ver sofrer
de remorso, de agonia.

Às vezes fico pensando,
se neste mundo não houvesse
alguém que nos amasse,
alguém que por nós olhasse,
alguém que nos ensinasse,
alguém que nos acalentasse,
batesse, ralhasse, brincasse,
ouvisse, beijasse….
Se a mãe da gente não fosse
como a Santa Virgem Maria…
e então pergunto senhores
Deste mundo o que seria?
Este mundo existiria?

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