Colegas de trabalho

Minha história começou em 1959, em uma fábrica de bolsas no Brás. Verdade, eu contava 13 anos, sem poder continuar os estudos (que se não sou frustrada, sinto não ter continuado a estudar); ainda trago comigo tantas boas lembranças do convívio com meninas que, como eu, foram buscar emprego. 
 
Sabíamos muito pouco, mas éramos agradecidas por ter patrões nos dando chance para tocar nossas vidas. Nâo passávamos de dez garotas, conhecíamos suas famílias, ou melhor, acabávamos fazendo parte delas. Tínhamos o mesmo modo de educação. Falávamos dos namoricos, mas com cuidado para nossos pais não saberem, afinal, nem 15 anos nós tínhamos. 
 
Só sei que foi um tempo que marcou minha vida, ainda hoje falo com a Marli e ela traz notícias do resto do grupo. Só a Selda vive com um problema sério de saúde, as outras, graças a Deus, estão ótimas, assim como seus esposos e filhos, e agora os netos também.
 
Me casei e saí da fábrica quando esperava meu primeiro filho. E assim aconteceu com minhas amigas. Hoje, depois de 47 anos, nem vi o tempo passar; lembro de nossos papos de meninas e tenho que confessar: foi bom demais. Meus patrões foram pessoas dignas, faziam o possível para ajudar nas dificuldades, eram muitas, morávamos em bairros distantes, comíamos a nossa marmita com um certo conforto. Porque meus patrões ficavam atentos aos nossos pedidos. 
 
Faço desta história minha homenagem as amigas, aos meus patrões, e a pessoas como eu, batalhadores, sem ter medo ou preconceito. Sou grata a tudo que ocorreu na minha vida. Não estudei como queria, mas não fez falta, até hoje faço o que aprendi na fábrica, o meu lazer; é isso mesmo, faço minhas bolsas e passo boa parte dos meus dias costurando peças de artesanato, acho o máximo. Enfim, esta é uma história de vida bem vivida!