Fui até o portão para dar minha caminhada e pensei:
– Hoje não dá.
A danada da gota me pegou de jeito. Paciência, amanhã estarei melhor. Então vou fazer o que mais gosto, escrever.
Um amigo meu colocou uma foto no Face, mostrando como está a barragem: completamente seca. Fiquei preocupada e pensei:
– Preciso economizar água.
É, mas a gente paga.
– E daí?
Os recursos naturais um dia vão acabar, se não economizarmos. Tudo acaba. Essa barragem é imensa; só do sítio do meu pai foram oito alqueires desapropriados.
Eu não tenho ideia do quanto ela é imensa. Ela abastece toda a São Paulo. E debaixo de toda aquela água estão os caminhos da minha infância. O bairro onde eu nasci, bairro do Bugio. O sítio do japonês X, dizíamos assim porque o nome dele era muito difícil.
Toda aquela mata onde eu e meus irmãos íamos buscar lenha. Colher palmito, caçar tatu, e outros bichos. Isso quem fazia eram os adultos, e os cachorros voltavam com o focinho cheio de espinhos.
E nos ribeirões tinha peixe, muito peixe. E, quando chovia, minha mãe colocava um saco de estopa que enchia de bagres, lambaris e peixes de água doce. Se eu for contar fico aqui me estendendo demais.
Na entrada da minha cidade, na rotatória, tem uma escultura de peixes. A cidade tem o nome Piracaia, que dizem que quer dizer peixe frito.
E o pessoal de São Paulo, nos fins de semana, vem pescar, fazer trilhas. Então esta água é abençoada.
Ser como a água,
que depois de regar, florescer, frutificar,
dar de beber aos homens e animais
e colorir o arco íris
volta humilde para o fundo da terra.