O Grupo Escolar Pedro II

O bonde número 35 passou pela Rua Carlos Vicari, vindo da Rua Guaicurus, na Lapa. O Juca subiu no bonde e ficou debruçado no estribo abarrotado de gente, se agarrou firmemente, com a mão esquerda, no balaústre do bonde. Com a mão direita, segurava a maleta com os livros e os cadernos escolares. Havia calculado que aguentaria firme nessa posição desconfortável até a próxima parada, na esquina da Avenida Francisco Matarazzo com a Rua Antártica. Ficou imaginando, se não aguentasse, fatalmente, bateria em um dos postes de iluminação no meio da avenida e cairia no canteiro central, porque naquela época, os bondes corriam pelo centro da rua. Seria fatal o acidente. Portanto, tinha que aguentar firme no estribo do bonde, até a próxima parada na Rua Ministro Godoy. Felizmente aguentou. Naquela época, estudava no curso primário no Grupo Escolar Pedro II na Rua Margarida. Vinha da Vila Pompeia. Desceu no Largo Padre Péricles, passou rapidamente pela igreja de São Geraldo, fez uma breve oração pedindo proteção e foi direto para a escola.
 
– “A professora ainda não chegou?” – perguntou.
– “Parece que ainda não chegou!” – disse o Badico, seu colega de classe.
– “Ô Badico, me diga uma coisa. Quantas reguadas a Ema te deu na cabeça ontem?”
– “Umas três.” – respondeu o menino, todo orgulhoso do feito.
– “Pois bem, ontem, depois do recreio, na aula de aritmética, ela quebrou uma régua fina em minhas mãos e pôs-me de castigo virado para a janela da rua, olhando bem de frente para o prédio do hospício.”
– “Eu escutei os do hospício em frente da escola, ficarem gritando palavrões do alto das janelas gradeadas.” – disse o Hildebrando, olhando para os lados do Largo Padre Péricles, onde se erguia uma casa de saúde mental.
– “Os residentes do hospício estavam furiosos com aquela situação.” – disse o Badico, depois de retribuir os xingamentos deles, com outros xingamentos de dentro do pátio interno do recreio do grupo escolar.
 
Nesse dia, dona Ema, a professora primária, deveria ensinar seis estrofes de uma poesia que deveriam ser decoradas pelos alunos, para a festa de encerramento do ano letivo de 1946. E a madrinha, a diretora do grupo escolar, dona Isolina Vieira de Castro, ficou perplexa, principalmente quando o rapazinho, abriu a blusa e gritou batendo no peito:
– “Aqui dentro, aqui dentro, neste lado esquerdo, do meu peito varonil, está o meu coração italiano e alemão.”
– “A classe toda desabou em risos.”
A Ema ficou rubra de cólera. Aquele moleque estava achincalhando com as estrofes da poesia. Deveria ter dito: “aqui dentro, está meu coração brasileiro e não… italiano e alemão”.
 
Sentado na carteira escolar, bebeu uma lágrima, que escorreu no canto dos olhos, desceu pela boca aberta, depois de uma reguada na cabeça e outra na palma da mão. A Ema era implacável. Aquela megera, vinha do tempo em que os alunos tinham que, forçosamente, se ajoelharem no milho, como castigo, depois de cometerem algum deslize na escola. Naquela época (1946), porém, os conceitos dos castigos escolares tinham evoluído. Não mais se usavam métodos trogloditas de tempos passados, como os castigos de joelhos no milho que, com toda certeza, a Ema tinha recebido dos seus antigos professores. Hoje a moderna pedagogia, aplicava as reguadas na cabeça e nas mãos dos indisciplinados escolares. Afinal das contas, estávamos em pleno ano de 1946, depois das mais horrendas e sangrentas, das duas grandes guerras mundiais. Tudo evoluiu.
 
Dona Isolina saiu da sala da diretoria. Vinha caminhando pelo corredor com uma sinistra ideia de passar a mão no chinelo e dar umas boas chineladas na bunda do gracioso aluno. No entanto, se conteve. O menino já havia sido devidamente repreendido e castigado pela professora Ema.
 
O sol batia em cheio na janela da sala de aula. O menino abriu a janela e o sol entrou.
– “Juca!” – chamou dona Ema.
– “Sim professora!”
– “Amanhã, de manhã, antes do começo das aulas, pede para sua mãe vir até aqui na escola, porque tenho um assunto para dizer-lhe.”
 
O Juca ficou apreensivo. Com certeza, vinha mais uma reclamação sobre o comportamento inadequado do menino. Amanhã, não iria à escola. Estava decidido, iria gazetear no Palestra Itália. Antes, porém, deu o recado da professora para a mãe e saiu de mansinho da sala. Sabia, de antemão, que a mãe iria passar-lhe um “sermão da montanha na melhor das hipóteses”, senão, algumas chineladas na bunda, caso achasse necessário, depois da gravidade das reclamações da professora.
 
No dia seguinte estava ele metido no Parque Antártica. Os 22 babacas de camisas verdes e calções brancos corriam, de um lado e de outro do campo, pulavam, diblavam, chocavam-se, esfalfavam-se, gritavam feitos loucos, correndo desesperadamente atrás da bola de capotão marrom, que não parava um minuto sequer de rolar de um lado para outro, no treino oficial dos aspirantes reservas com os titulares.
 
– “Ô Jair da Rosa Pinto, quebra ele sem dó! Chuta com força, que o Oberdan Catani não pega… Vai… Vai… Liminha… Joga no meio do campo… Chuta… Chuta… Ademir…”
– “Fecha a latrina, seu burro… Juiz ladrão, indecente!”
 A plateia gritava aboletada no alto do tabuado de madeira da arquibancada na entrada da Avenida Francisco Matarazzo. Um aeroplano de duas asas passou baixo, quase rente à torre da arquibancada de cimento armado pelos lados da Rua Turíassú.
 
Depois de gazetear naquela manhã, era hora de voltar para casa. O Juca já sabia de antemão o que lhe esperava. Ao chegar aos degrauzinhos do sobrado da Rua Venâncio Aires, a mãe já o esperava com o chinelo nas mãos. Não deu tempo para se escafeder para o meio da rua. Durante uns cinco minutos o chinelo correu solto na bunda do moleque. O que teria dito a bruaca, a bruxa da Ema para a mãe, naquela manhã primaveril de novembro (1946), no Grupo Escolar Pedro II? Ele cresceu, ficou moço e nunca ficou sabendo exatamente o que de fato ela havia reclamado dele.