Um tupamaro invadiu nossa escola

Ontem, estive no encontro dos ex-alunos do Colégio Estadual Professora Emília de Paiva Meira. Grupo este denominado “Emilianos”, que é composto por amigos formados no curso ginasial entre 1964 a 1968.
 
O Emília, como denominamos carinhosamente nossa escola, foi um colégio público modelo, principalmente nas décadas de 1950 e 1960, e lá vinham estudar os melhores alunos da região (zona Leste), pois sua admissão era tão difícil como hoje é um vestibular para a USP.
 
Bem, voltando ao foco desta história, encontrei no almoço de ontem na Churrascaria Aquário, em Itaquera, na Avenida Jacu Pêssego, um grande amigo: o José Faustino, que era aluno da primeira série ginasial no mesmo ano em que eu estava me formando, em 1966.
 
Entre várias recordações Zé Faustino contou-me em detalhes a verdade de um ocorrido que ficou famoso na época, quando um guerrilheiro tupamaro invadiu o pátio do Emília em um feriado de 7 de Setembro e alçou um latão de lixo a meio pau no mastro da Bandeira Nacional.
 
Vocês podem imaginar o tamanho da repercussão deste ato no auge da Ditadura Militar. Foi muito maior, o colégio foi alvo de investigação e por vários dias o clima realmente ficou pesado, não cabendo outro tema a ser tratado em todas as rodas de bate-papo.
 
Vamos lá. A verdadeira história contada pelo Zé Faustino, um dos protagonistas do ocorrido. Era comum, nos dias de feriado e nos finais de semana a invasão do colégio pelos meninos, principalmente a turma da Rua XV de Novembro, da qual o Zé participava, para jogar futebol de salão na única quadra existente em Itaquera.
 
Na mesma ocasião mudou-se para Itaquera uma família de uruguaios com vários filhos, e um deles, o primogênito, garoto de físico avantajado, que pelos traços lembrava um guerreiro guarani, conhecido por todos apenas por seu apelido “Batfino” menção ao super-herói de desenho animado. O Morcego do sonar radar e asas de aço Batfino e seu inseparável amigo e motorista do Bat-lac Karate. Que faziam uma alusão ao Besouro Verde e Cato.
 
Aos poucos Batfino montou sua turma de garotos mais velhos que também invadiam a escola e expulsavam a turma do Zé e faziam-se donos da quadra.
 
Sofrendo este tipo de “bullying”, e não sendo garotos de levarem desaforo para casa, Zé e seus amigos da XV decidiram ir ao banheiro onde os garotos deixavam as roupas durante a partida de futsal e aprontar com as roupas do Batfino. Juntaram as roupas do uruguaio e esconderam em um dos mais de cem latões de lixo espalhados pelas classes da escola.
 
Preocupados com a reação do Batfino e de forma prudente, colocaram um bilhete no local onde estava a roupa informando que as mesmas estavam escondidas em alguns latões de lixo espalhados pela escola.
 
Até aí o plano corria dentro de controle, quando surge a figura do Tuim (Luiz Carlos Michelman). Se existisse um capeta em uma escola, este era o Tuim, garoto mais velho, ruivo com sardas em todo corpo. O Zé caiu na besteira de contar para o Tuim o que tinham aprontado e o mesmo, de imediato, aderiu ao plano que julgou ser muito suave e sugeriu pegar um dos latões de lixo e alçar no mastro da bandeira, e por conta própria, sem nem mesmo consultar a turma, ao amarrar o latão na corda da bandeira, não satisfeito, tocou fogo no mesmo e alçou, tendo tempo de dar um nó cego no cordão antes de sair em disparada para longe da escola, no que foi seguido pelos demais garotos que se recolheram na proteção de suas residências.
 
Ao perceberem a fumaça na escola, o pessoal da ronda foi verificar o que estava ocorrendo e depararam-se com o Batfino desesperado com as mãos na “botija”, quero dizer, na corda da bandeira tentando desatar o nó e recuperar as cinzas de sua roupa.
 
Conclusão: toda família do Batfino foi parar na 27 DP de Itaquera acusados de “Ativistas Tupamaros”. O caso fora devidamente esclarecido, pois o professor Américo, professor de português do Científico, que morava em um sobrado em frente ao colégio, de sua janela teve a oportunidade de acompanhar toda a movimentação da escola naquela tarde do feriado após o Desfile de 7 de Setembro.
 
O professor Américo levou os garotos da XV para explicarem o ocorrido ao delegado e todos acabaram levando uma enorme “carraspana”. Não sabemos o que ocorreu posteriormente com nosso guerrilheiro tupamaro. Sua família mudou-se de Itaquera e não tivemos mais notícias dos mesmos.
 
O colégio passou a ser vigiado pela polícia aos finais de semana e os garotos perderam sua quadra exclusiva. Para concluir. Descobriu-se depois que Batfino não era uruguaio era chileno.