O ano era de 1962, eu tinha 12 anos e o Maurício, meu irmão, tinha sete. Naquele tempo, lá na Parada Inglesa, onde morávamos ainda, havia muitos terrenos baldios e, como a coleta de lixo não era tão regular quanto hoje, muita gente menos higiênica acabava descartando o lixo nestes terrenos.
Muito bem, eu e meu irmão vínhamos passando a frente de um destes terrenos, que estava cercado, mais tarde ficamos sabendo que era um terreno do Seu Emílio, mas no dia eu não sabia de quem era e no lixo depositado naquele terreno o meu irmãozinho viu um bonequinho, tipo pino de boliche, e pediu para que eu pegasse o boneco para ele.
Não tive a menor dúvida, pulei a cerca, fui lá, peguei o bonequinho e fomos os dois para casa, felizes e contentes. No caminho encontramos o nosso pai, que vinha voltando do trabalho e, ao ver o bonequinho na mão do meu irmão, perguntou onde havíamos encontrado aquilo e eu disse. Imediatamente ele me perguntou se o terreno estava cercado e, diante da minha afirmativa, energicamente mandou que eu e meu irmão voltássemos lá e devolvêssemos o bonequinho para o lixo. O que fiz incontinente (imagina que naquele tempo a gente perguntava para o pai por que?).
Quando cheguei em casa, ele me chamou, me pôs na frente dele e explicou (meu pai sempre me explicou toda vez em que usou energia comigo): "Meu filho, o terreno não está cercado? Então ele tem dono e se tem dono tudo que está lá dentro é do dono do terreno, até o lixo. Portanto, você nunca poderia ter entrado lá para pegar nada. Não se pega nada que não é da gente, mesmo algo insignificante. Além do que vocês nunca precisaram pegar nada no lixo. E agora pode ir e não faça mais."
Hoje, aos 63 anos, quando penso que por toda minha vida pude andar de cabeça erguida e não preciso abaixar os olhos para ninguém nem muito menos esconder nada da minha vida, agradeço a Deus por ter tido ele nela e me pergunto: E se não fosse ele?