Enchentes do Rio Tietê na Freguesia

A várzea da Freguesia já era um imenso rio e a chuva continuava a descer sem parar por vários dias seguidos.
 
Nessa época, eu e outros amiguinhos de infância tínhamos acabado de fazer a primeira comunhão e havíamos feito inscrição para entrarmos para a Cruzada Eucarística. E já éramos coroinhas e ajudávamos as missas que naquele tempo ainda eram em latim, então havia um tempo de preparação para que os coroinhas iniciantes aprendessem as respostas em latim (coisa horrorosa). Gosto da missa como é hoje, em nosso idioma, graças ao Papa João XXIII e ao seu Vaticano II.
 
O vigário da paróquia era um padre super inteligente, querido e muito estimado pelos moradores do bairro, inclusive foi o padre quem fez o meu batizado. Anos depois fiquei sabendo que o mesmo tornou-se doutor da igreja, além de receber o título de “Cônego” e “Monsenhor”, também foi professor de Teologia do Seminário Maior do Ipiranga.
 
Mas voltando ao assunto das chuvas, o barro tomava contas das ruas do bairro, a maioria sem calçamento, isso atrapalhava a participação do povo nas atividades da paróquia. Tanto as realizadas dentro do templo, missas, casamentos, batizados, terços etc., como as realizadas em praça pública, procissões, quermesses, comemorações etc. Naquele tempo, havia quermesses que duravam de dez a 15 dias, como também uma festa tradicional do bairro, que até hoje é comemorada e festejada com muita animação pelos atuais moradores do bairro, que é a famosa Festa do Divino, com desfile a cavalo e a famosa e esperada Congada.
 
O padre com um jornal nas mãos e debaixo de um toró de água que descia dos céus, enquanto aguardava na porta de entrada da igreja os fiéis para a missa das 8h, tomava conhecimento das notícias mais recentes sobre os estragos da chuva, tendo ao seu lado eu e mais dois companheiros coroinhas, já vestidos com os paramentos próprios para ajudar o padre na celebração, e do outro lado da entrada um senhor idoso e de barbas grandes portando uma bengala, deixando a impressão de que nem iria participar da missa, e sim estava ali apenas buscando proteger-se da chuva, incessante.
 
O povo cheio de fé foi chegando, barro por todos os lados, a frente da igreja lamacenta, os corredores internos todos sujos de barro vermelho.
 
O padre querendo puxar conversa com aquele ilustre desconhecido de enormes barbas. Antes de entrar para cumprir sua missão e no intuito de deixá-lo à vontade para participar do culto, caso o mesmo desejasse, comentou com o mesmo de passagem enquanto caminhava para o interior da igreja.
 
– “Tá” feia a coisa, não? Já tem muro caindo e já fazem cinco dias que chove de dia e de noite sem parar.
 
O estranho respondeu tranquilo e rindo, com um sotaque interiorano:
 
– “Que nada seu padi, isso não é nada não, já vi coisa bem “mais pior”, mais muito mais pior mermo”.
 
E com essa resposta pôs fim ao papo do padre, que só queria de fato saber alguma coisa a respeito do cidadão desconhecido na entrada da igreja na hora da missa e com aquele aguaceiro caindo há dias.
 
O padre acabou iniciando a missa, mas dava para notar que sua atenção estava totalmente voltada para aquele desconhecido cidadão barbudo, que participava também da missa lá no fundo da igreja e, em sua opinião, pela primeira vez.
 
Ao término da missa, como a chuva continuava, o povo rapidamente deixou o templo e ao sair o padre notou aquele senhor idoso e barbudo parado na porta de entrada da Igreja.
 
Ainda curioso o padre comentou:
 
– A chuva piorou muito, não é mesmo?
 
E frustrado recebeu do barbudinho a mesma resposta de antes, com aquele mesmo estranho sotaque.
 
– “Isso não é nada não seu padi, já vi coisa bem pior mais bem pior mermo”.
 
A mesma história voltou a ocorrer no domingo seguinte entre o padre e o idoso barbudo na porta da igreja, que terminou também com aquele mesmo papo: – “Isso não é nada seu padi, já vi coisa bem mais pior mermo”.
 
E então a chuva deu uma pausa de uns dois dias, e no final da terceira semana seguida ela voltou com tudo que tinha direito. E novamente a história se repetiu, o padre puxou assunto e o idoso barbudinho respondeu.
 
– “Que nada seu padi, isso num é nada não, já vi coisa bem pior, mais bem mais pior mermo”.
 
Choveu mais uma semana inteira e naquele tempo, graças a Deus, os morros ainda não haviam sido ocupados por falta de moradias, e não havia ainda gente ocupando áreas de risco, a população paulistana não chegava aos dois milhões de habitantes.
 
Mais um final de semana chegou e aquele aguaceiro caindo, as enchentes invadindo ruas e quintais, o muro do cemitério veio abaixo, algumas sepulturas desabaram, e no domingo, na hora da missa das 8h, faltavam exatamente 15 minutos para as 8h, seu Pedro, que era o sacristão, já havia batido o sino chamando a população para o culto. Na porta em frente da igreja, já paramentado para a celebração da Santa Missa, o padre, nós os coroinhas e do outro lado aquele estranho idoso barbudo que ninguém conhecia e que por essa razão estava deixando nosso padre maluco de curiosidade, com aquele seu estranho papo: "Isso não é nada seu padre, eu já vi coisa bem pior, mais bem mais pior mermo", juntamente com aquela chuva que insistia em cair o tempo todo.
 
Até que não suportando mais aquela incomoda curiosidade, o padre foi até o barbudinho e comentou sobre os últimos estragos acontecidos no bairro dizendo:
 
Essa chuva ta feia, não é mesmo? Essa semana invadiu muitas casas e ruas derrubou o muro do cemitério, desabou duas sepulturas, nunca vi nada assim por aqui e já faz mais de nove anos que eu estou de vigário nessa paróquia.
 
E o idoso barbudo deu a mesma resposta.
 
– “Isso não é nada seu padi, eu já vi coisa pior, mas bem mais pior mermo…”
 
Ele ia continuar, mas o padre interrompeu dizendo.
 
– O senhor viu coisa pior? Pior que isso? Não acredito! De onde o senhor é? Afinal, como o senhor se chama? Qual é o seu nome?
 
– E o estranho falou: – “Carma seu padi, meu nome é Noé”.