Ângulo reto, “hein”!

Anos 50. Daqueles paulistanos que, em vez de “coisa”, falavam era “cousa”. O colega de oficinas do Cambuci, de meu pai, “lighteano” da Lavapés, aquele enorme muro vermelho que não terminava mais… Gente boa, “hein”! O simpático Cimino, nosso vizinho, na Vila Mariana: o sempre bigodinho acompanhando o sempre sorriso. “Cousa”…

Pois aquele mesmo Mário (o da “cousa”) também se saía com outra – que o passar do tempo soterrou nas catacumbas romanas, a expressão: “cousas e lousas”. E mais, ainda: no lugar do correto “mas”, ela nasalizava a adversativa, dizia… “mâns”! Que “cousa”, não?

O quê? Lembro que ninguém menos que ela, a diva loira (“loura”?), Hebe Camargo! Sim, certo programa – na Record, no SBT? – eu a ouvi pronunciar “mâns”, alegando inclusive que era “mais elegante” que “mas”… Gracinha, gente! Aplausos! – não da ortofonia, claro. “Mâns” quem iria ousar contradizer o eterno sorriso, da eterna primeira-dama de São Paulo? Eu? Nunca! E muito mais!

Naqueles longínquos anos 50, por sobre o nosso grande quintal gramado – um quaradouro em que minha mãe estendia roupa –, quintal também de plantas e árvores, passavam regularmente os aviões. Todo santo dia (e noite).

Rodas baixadas, baixa altitude, cabecinhas nas janelas eu via, aviões que ultrapassavam minha casa e a colossal chácara adjacente – para a seguir contornar o “Obelisco de 32”. Depois, Moema, Indianópolis, a TV Record, deixando para trás os bondes (linhas 101 a 104) de trilhos “ferroviários”. Pronto! Congonhas! O então lindo aeroporto, ninho dos pássaros de prata.

E assim, do mesmo modo, também aviões que decolavam (não todos, porém) daquela mesma cabeceira – o xadrez da hoje Rubem Berta – eles também sobrevoavam nosso “quintalzão” – anos 50, 60. Minha casinha, nas rotas das aeronaves, era…

Então, caro SPMC, aquele nosso lugarzinho “vilamarianense” – José Antônio Coelho defronte à Caravelas e ao bar do “seu” Varanda (bar que varanda alguma tinha) – as duas rotas cruzavam: ora uma, ora outra. E em “ângulo reto”, como ocorreu de um dia eu notar – ângulo reto que por primeiro vi no “Osvaldo Sangiorgi” – primeiro ginasial, livro capa dura, laranja – Companhia Editora Nacional?

Ah, sim! Lembro-me daquele dia! Eu, dez para 11 anos, 1958… Quando então vi o belo quadrimotor, que trouxe a seleção campeã, trajeto Rio – São Paulo. Jogadores paulistas. Seleção canarinho que, de azul, triturou o amarelo da Suécia, não é? Avião aquele – acompanhei no rádio de válvulas – que sobrevoou São Paulo e, “pegando o caminho da roça”, cruzou nosso céu – “É ele!” – driblou o obelisco, avançou pela “área” de Moema, mirou a pista e… “goool”! Pousou, torcida brasileira! Diz a Internet: era o “Constellation” da Panair, PP-PDH (prefixo que eu nem mais lembrava). Euforia!

“Ah”, elegante “Constellation”! Pousado, rolando no gramado (digo, concreto), taxiando para o ansiado (ilustre) desembarque, a aeronave – motores em recesso – ela desliza suave! Como um lançamento de Didi! Passe milimétrico de Zito, Dino Sani! Um toque de Nilton Santos, a Enciclopédia (falavam). O avião, duas asas de prata: uma era “São” Gilmar; a outra “São” Castilho – ambos mãos de ouro! Ouro? Ora, a taça “recebeu” tanto calor humano – sabemos – que… “derreteu”, não foi?

Pois saiba, SPMC. Aquele “ângulo reto”, que eu “via” no cruzar das rotas sobre minha casinha, o ângulo reto, ele me foi uma turbulência – quase me derrubou! Primeiro ano ginasial, aula então de “Ciências”:

— “Você! (eu) — quantos graus ferve a água?”.

— (Eu, de sem-pulo!) “Noventa graus, ‘fessor’!”.

— “‘Burrão’! Cem! Cem graus, ‘sô’!”

“Cartão vermelho!” (ainda não havia) – Câmbio, desligo!

Bem, todos sabemos. Que a geometria, o ângulo reto, o berço é na Antiga Grécia, claro! Como gregas eram as (“humm”!) grandes azeitonas verdes e pretas – minha mãe (quando?) comprava – “feira de rico”, diziam outras mães proletárias – feiras da Alcino Braga e Moema. Gregas ou portuguesas, “hã”? Bom, se a Grécia fosse ibérica…

O certo foi que… Para mim, a “cousa” aconteceu, “hein”! Por conta da imperdoável escorregada no gramado – digo, na sala de aula – com relação ao ângulo reto (que jamais ferveu), daí os deuses gregos do Olimpo (eu, que morava perto do campo do Olímpicos do Paraíso), resolveram punir a mim, “molecão” já! “Shazam”! Isto é, com a “ajuda” do Capitão Marvel, o castigo… Gibi que eu adorava!

Creia em mim, SPMC! Tiraram (castigo) “tudo” de mim: a casinha, o “quintalzão”, as rotas que lá cruzavam – até o romantismo! O romantismo de Vila Mariana, à época “bucólica” (exagero!).

Foi que os deuses do Olimpo, represália à burrice do moleque, enviaram (talvez via Panair) um… “agente 007” – dissimulado, sob a alcunha de “progresso”! Progresso que, onde o moleque jogava bola, bolinhas de gude no terrão, taco e rolimã (na rua), onde o moleque plantava muitas plantas – ali o progresso plantou: prédios insossos e asfalto (uma tal de 23 de Maio)! Enfim: esterilizou a paisagem verde – “Shazam”!

Epílogo. Então mudamos. E na mudança, a mim me coube carregar duas “cousas” – que se foram alojar… No caminhão Chevrolet? Não. “Mâns” no fundinho do coração: tristeza e inconformismo! As duas “cousas” cruzando entre si – rigorosamente noventa graus! Ângulo reto.

Ora, a vida é assim – “Assim caminha a Humanidade”, não? – filme que vi no cine Cruzeiro. Ou no Phenix? No final do filme, olhos arregalados do moleque, um belo Douglas DC-4! Igual aos dos de Congonhas, velhinho! “Skymaster”, “Real-Aerovias”.

SPMC, fico-lhe grato! Pela atenção. Pela paciência. Acolher mais esta reminiscência – São Paulo de outrora, lembranças que guardo ainda.

Todos sabemos. A então CBD virou CBF: o Brasil ganhou outras Copas, claro! Para mim, nenhuma outra trouxe – nenhuma trará – o colorido das expectativas do mágico tempo de infância, adolescência… Expectativas pelo vento dissipadas. Sim, “E o vento levou” (esse, não vi). Abraços!