Renato Canini

6h30 da manhã e a Rádio Estadão dá a notícia: Renato Canini falecera em sua cidade, Pelotas, aos 77 anos. Creio que de forma tranquila, o coração falhara. Liguei ao amigo Shimamoto, mas ele já sabia, em uma transmissão de madrugada, outro já o havia notificado, postando a notícia de um jornal gaúcho.
 
Renato Canini, que se notabilizou por deixar mais brasileiro o Zé Carioca, fazendo constar favelas ao fundo das histórias, colocando personagens negros em atuação. Enfim, com um “carioquismo” autêntico. Mas os estúdios Disney não gostaram do “realismo brasileiro.” Além de que, muito pessoal, seu desenho afastava-se cada vez mais da padronização “disneyana”.
 
Assim, desenhou o Zé Carioca por seis anos, muitas vezes em parceria com meu irmão Ivan, que escrevia os roteiros, tomando também parte em tal “abrasileiramento”. Canini foi então afastado da ala Disney da Editora Abril, mas continuou, sempre evoluindo, com outras personagens, como o ecológico indiozinho Tibica e o satírico caubói Cactus Kid.
 
Conhecia-o há mais de 50 anos, quando Shimamoto e eu fomos passar um período em Porto Alegre, na cooperativa de HQs nacionalistas fundada por Brizola. Trabalhamos na então moderna sobreloja da Rua da Praia, com os gaúchos Flávio Luiz Teixeira, também falecido, e o simpático e discreto Canini. Fomos muito bem acolhidos por eles, e convidados a almoçar nas casas desses novos amigos. Eram, os dois, excelentes pessoas, e Canini, além de tudo, muito religioso. Um verdadeiro santo.
 
A cooperativa, por ser demasiado política e regional, não deu certo. Mas a lembrança dos amigos feitos por lá nunca me deixou. Quando se iniciou a era da informática, também a das redescobertas, e Shima enviou-me o endereço do Canini, podendo assim reatar a velha amizade. Se bem que com Internet o Renato não mexia. Chegou a ganhar um computador, mas doou-o à irmã.
 
Então, via correio mesmo, vim a saber que havia se casado e agora morava em Pelotas, tendo ainda um apartamento em Porto Alegre. E foi para lá que nos dirigimos, minha esposa e eu, em novembro de 2002. Voltava a ver o amigo, e a agradável cidade, após exatamente 40 anos.
 
Foi uma bela visita e o Grande Canini, com sua esposa Lourdes, nos acompanhou aos velhos e nostálgicos pontos da cidade. Quantos sentimentos, de alegria, tristeza e mesmo raiva, afluíram-me á mente ao percorrer as ruas que tão bem havia conhecido, com fantasmas do passado seguindo-me a cada passo.
 
Continuamos a nos corresponder – por carta – e eu sonhava em retornar à capital gaúcha. Afinal fazia mais de dez anos de nossa visita. Mas, sempre premido pelo tempo, esta volta foi sendo adiada. E agora Canini se vai, já com o passaporte carimbado para o “Céu dos Bons”, de forma inesperada. Concedido prematuramente, mas mais que justo.