Fins dos anos 30, começo dos anos 40 até os anos 50. Alto da Lapa. Rua Pio XI, na junção com a Rua Cerro Cora, a ralé, quando muito, tinha que andar a pé por longas caminhadas, por falta de condução. Dona Assumpta levantou a tampa da panela de ferro, abaixou a chama do fogão e passou um pouco do líquido espesso do doce de bananas sobre a palma da mão e experimentou.
– “Está muito boa! Tem certeza que não quer provar Jacy?”
– “Agora não. Obrigado!”
Ela riu.
– “Então leva um pouco da sobremesa no pote de plástico, na marmita, para experimentá-la depois do almoço.”
– “Vou levar sim. Ajeitou o pote em um canto da mochila e saiu.”
Tinha que esperar pela jardineira do Bacarelli que devia despontar na curva da Rua Pio XI com a Rua São Domingos Sávio às 4h30 da manhã. Porém, o ônibus não apareceu. O Badico vizinho de muro e que trabalhava durante a noite toda, vinha caminhando no lamaçal da Rua Cerro Cora e ao avistá-lo, foi logo dizendo:
– “Ô Jacyntho, o ônibus derrapou na trilha da Rua Ponta Porã, bateu no barranco, girou no próprio eixo e encalhou com as rodas traseiras no lamaçal. O motor do Volvo morreu e não pegou mais. O jeito agora é você ir a pé.”
Aquilo era um transtorno, um sacrifício, uma maçada. Agora o Jacyntho tinha que descer a pé até a Lapa. Naquele dia estava garoando e muito. Havia quase uma semana inteira que estava chovendo continuadamente. Agora a chuva tinha se transformado em uma garoa constante, miúda, úmida e persistente. A Rua Pio XI tinha um trecho comprido de terra socavada. Ao longo da rua, os arbustos despontavam nas laterais das calçadas e pareciam alegres e viçosos, muito bem lavados, pela chuva do dia anterior; o chão era coberto por folhas mortas, que cobriam o espesso solo ensopado. Nas beiras das sarjetas, a terra tinha um aspecto de cor limoso esverdeado e em frente ao Colégio Teológico Salesiano, havia um semilíquido no leito carroçável cortado longitudinalmente pela trilha deixada pelos escassos pés humanos que por lá se arriscavam transitar
O chão batido, revolvido, amassado também, cavava-se, alteava-se em almofadas de lama, ora em poças de águas barrentas e amarelas, ora de cor vermelho terroso. Nas sarjetas esburacadas, corria pequena enxurrada enxadrezada nos declives, banhando as raízes das gramíneas que cresciam no alinhado da rua. Avistou, no quintal de uma casa, um pequeno pomar com uma laranjeira, uma ameixeira, uma mangueira, um pessegueiro que viçavam suas folhas muito lustrosas ao sabor do vento úmido. O céu, no entanto, permanecia pardo, como que descido, parecia querer engolfar toda a superfície da terra. A garoa rolava do alto brincando seus pingos miúdos no ar. O Jacyntho consultou o relógio de bolso. Um quarto para as 5h da madrugada. Tinha que estar na Estação da Luz às 6h em ponto. A estação da Lapa ainda estava longe. Levantou a gola do paletó, desceu a aba do chapéu, enfiou as mãos nos bolsos da calça e seguiu em frente.
No caminho passou pelo Colégio Campos Sales na Rua Doze de Outubro. Um grupo de estudantes estava na porta aguardando a sua abertura. Pensou no seu filho que estudava no período noturno, no velho Caetano de Campos da Praça da República. Um sacrifício. Não tinha ônibus direto para o centro da cidade e o menino tinha que subir diariamente a pé toda a Rua Pio XI. Um transtorno. Mas tinha que se conformar, não tinha posses para pagar uma escola particular. Além do mais, valia o sacrifício porque a escola era tradicional, uma das melhores de São Paulo. Tivera sorte de conseguir uma vaga lá.
Finalmente chegou ao Largo da Lapa. Ali naquela hora enviesada da madrugada, o pessoal da faxina do Mercado Municipal fazia evoluções entre as cadeiras de um bar de onde vinha o som de uma vitrola tocando músicas do Orlando Silva para o divertimento dos desocupados parados na porta do bar, aos montinhos aqui, ali, à direita, à esquerda, lá na Rua Cincinato Pomponet esquina com a Rua Doze de Outubro, no coração do bairro da Lapa. Passou rente a carroça do verdureiro português de grandes bigodes e costeletas e da mulher de cabelos desgrenhados. O homem estava colocando na carroça no meio das caixas dos tomates, separadas por um trilho de papelão, outras mercadorias que iria comercializar pelas ruas do bairro.
O Jacyntho atravessou o pontilhão de ferro da estação. Do outro lado, depois dos trilhos da São Paulo Railway Company (SPR), lá já era a Lapa de Baixo. Viu ao longo da rua da estação, do outro lado da calçada, a barbearia do Nicola e uma enorme tabuleta dependurada na fachada do sobrado: “Barba 400 réis; Cabelo 700 réis. Serviço garantido.” Ele ficou ali parado, na banca de jornal, enquanto lia a manchete do jornal “O Correio Paulistano” que trazia, no topo da primeira página, os acontecimentos do início da Segunda Grande Guerra Mundial. Depois os seus olhos cheios de estrabismo ao atravessar a rua cheia de cascas de tremoço e amendoim, a despeito de tudo, viu ao longe, a lanterna do farol do trem subúrbio que vinha de Pirituba.
Subiu no trem e se aboletou no terceiro vagão apinhado de gente. Desceu na Estação da Luz. Foi até o restaurante “Espadone”, dentro da estação, para tomar o costumeiro pingado com pão e manteiga. Aproveitou a oportunidade para olhar as meninas costureiras que caminhavam pela calçada do Jardim da Luz em direção da Rua José Paulino; àquela hora da manhã recém-acordada, elas riam, falavam alto, caminhava em grupo de cinco moças e balançavam os quadris como gangorras.
– “Ai que rico corpinho!” Arriscou olhando para as ancas de uma delas.
– “Não se enxerga seu cafajeste! Sujeito atrevido e sem educação” – arrematou.
As meninas de ancas salientes riam, porque os rapazes costumavam contar histórias muito engraçadas. Um estudante das Arcadas do Largo de São Francisco, sujeitinho de óculos pincenê, costumava recitar poesias de Gustave Le Bom e citava Rui Barbosa quando provocado pela molecada sobre uma estrondosa vaia dos estudantes do colégio Israelita.
O Jacyntho ouviu ao longe o ruído da sirene das oficinas de costura do Bom Retiro chamando as operárias para o início da jornada de trabalho.
6h da manhã. Ele já estava atrasado para o serviço. Subiu resfolegando as escadas de mármore da Estação da Luz e se dirigiu para o telégrafo. Sentou-se a mesa do encarregado, tirou o paletó, pôs no encosto da cadeira e concentrou toda a sua habilidade na ponta dos dedos, digitando rapidamente as letrinhas do código Morse tão necessário naqueles tempos distantes, desta São Paulo que hoje, infelizmente, não mais existe.