Estive na Zona Norte de São Paulo e passando pela Av. Júlio Buono recordei do "Cine Jade" onde eu pude, na minha infância, assistir filmes tão inesquecíveis que enchiam meu coração de sonhos e pensamentos mágicos de que apareceria um príncipe forte e corajoso morando em uma casa linda e cheia de flores para me resgatar de tanta simplicidade e pobreza…
Era a Dona Madalena (já publicaram uma história que escrevi sobre ela) que me dava dinheiro para que eu acompanhasse sua filha Regina nas matinês aos domingos. Lembro que meu coração disparava quando eu me via sentada naquela poltrona simples, de madeira sem nenhuma sofisticação, mas o colorido das luzes laterais embutidas nas paredes me encantava fazendo com que eu me sentisse alguém muito importante… olhando o vai e vem das pessoas que passavam por entre as fileiras misturando o barulho das vozes com o barulho do levantar e abaixar das cadeiras e o som alto das músicas que me fazia ficar envaidecida de estar ali e me sentir tão igual a todos…
Lembro de "La Violeteira" com Sarita Montiel de Marcelino pão e vinho, de vários filmes com Joselito e Marisol (hoje tenho um filha chamada Marisol) e de tantos outros que na época eram os chamados filmes românticos e que eu preferia, pois nunca gostei de ver aqueles que tivessem alguma violência (até hoje não gosto e nem assisto nada com estas referências) Durante o filme meu coração viajava em perguntas sem respostas por onde estaria meu príncipe?
E se estivesse sentindo algum amor platônico por alguém, já ia imaginando que ele deveria estar sentado em algum lugar bem próximo e aproveitava as luzes do intervalo para ficar em pé e olhar atenciosamente em volta tentando localizá-lo.
Doce ilusão de uma menina, talvez com 12 ou 13 anos de idade, e que para ela sentir amor platônico por alguém já era uma esperança de compromisso ou de descobrir um príncipe capaz de retirá-la de uma vida tão simples e transportá-la para uma casa cercada de flores com muro e um telhado imenso… Tantos anos se passaram e eu, aquela menina simples, depois de adulta, descobri que nem o telhado imenso, o muro, o jardim, as flores não fazem do seu amor um príncipe encantado…
Assistindo um filme clássico em um canal fechado de TV, há alguns anos, repensei minha vida e tudo o que eu imaginava ser mágico e que no fundo são apenas momentos de escolhas na qual felicidade e amor não podiam caminhar juntos…"As Pontes de Madison" foi o filme que assisti várias vezes e em todas meu coração doeu como se estivesse sendo pisoteado e eu estivesse amordaçada e algemada sozinha com a minha dor… Descobri que todos fazem escolhas, às vezes inconsciente, às vezes por comodismo e às vezes por amor aos filhos…e foi isso que a Mary Street fez, por amor aos filhos e para não magoar o marido, ela ficou…abandonou um amor daqueles que encantam a alma e se sacrificou com o coração estraçalhado e sangrando sozinha com sua dor … A dor da renúncia ficou marcada em mim por esta atriz, ela não quis sair pelo mundo e acompanhar a felicidade… Ela quis ficar na casa de muro alto com um telhado imenso e muitas flores apenas para fazer sua família feliz.
Voltei ao meu tempo de menina simples e descobri que eu alcancei muito mais degraus do que consegui subir e que a casa era muito maior do que eu sonhei. O muro era tão alto que me deixou sem luz, o jardim era muito grande para quem queria apenas colher algumas flores… Mas eu fiquei assim como a atriz, eu fiquei e não tive nem ao menos um grande amor para disputar a minha escolha de ficar…eu apenas fiquei.