Passado a doce “tortura” do “bicho de pé”, voltamos nossa atenção às festas da Semana Santa e Páscoa que se aproximavam. Seria nossa “vingança” contra o leitãozinho, coitadinho, dava dó, ele querendo brincar e nós, como guardas de uma penitenciaria, correndo atrás dele; gritávamos: ele vai para o corredor da morte e ainda pula de alegria.
Tínhamos um tio, comum a nós todos, que tinha a prática de sacrificar os futuros pratos principais das festas natalinas, pascoalinas e as demais que exigiam a presença de meu tio Santo, já falecido em 1938. Era, desde a simples galinha, passando por patos, perus, cabritos, porcos, coelhos, enfim, qualquer deles ele, meu tio, era chamado para a tarefa. Dessa vez, meu tio Ciccilo, seu irmão, precisou arrumar outro, lá no Tatuapé.
A família Laruccia tinha uma notória peculiaridade: meus avós paternos eram Vito Laruccia e Ana Maria Carone Laruccia, cuja passagem já contei aqui, neste site. Vieram da Itália com cinco filhos, quatro homens e uma mulher. A quinta filha nasceu aqui no Brasil, em Petrópolis, Carmela, cuja curta existência conto no texto “Vítima da arrogância”. Todos os filhos, Santo, João Batista, Bartolomeu e Francisco (além da Maria, “tzia” Luluccia, não teve filhos) casaram e seus primeiros filhos levavam os nomes dos avós: Vito e Ana Maria. Hoje, infelizmente, só resta viva a Ana Maria do tio Santo, os outros morreram todos.
Como era época de Semana Santa, tivemos a ideia de representar a história da “Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo”, com todos os trapos e fantasias dos soldados romanos. Destacamos principalmente a crucificação de Cristo e, para isso, precisávamos de uma cruz e o personagem que seria o próprio. A cruz, com dois caibros, não foi muito difícil; como Jesus Cristo, fui escolhido por autor da ideia. Fizemos a “Via Sacra” em volta do terreno, cavamos um buraco para fincar a cruz.
Meu primo falou: no lugar dos pregos vamos amarrar os pulsos e os pés do Tistininho (meu apelido). Assim foi, deitei na cruz amaram bem firme e sempre com ajuda da Ana Maria (Nanina) levantaram e fincaram no buraco, gritando e chamando minha tia Anastácia: “mãe, venha ver, crucificamos Jesus Cristo”. Eu, “crucificado” já sentia os pulsos ardentes e a cruz, já balançando, a possibilidade de tombar com a cara no chão, comecei a gritar. Eles riam e gritavam, “espera mais um pouco”. Vi que não iria adiantar, comecei a gritar, chamando minha tia que veio correndo me libertar. Depois, eles queriam continuar com a ressurreição e eu não topei.