Paulistano de 65 anos, meus primeiros 20 anos foram de Vila Mariana. Sempre na mesma casinha simples, de aluguel. Um grande quintal adjacente à colossal chácara, de onde desterrados resultamos devido à mega desapropriação, que por sua vez abriu as portas à implantação do trecho conclusivo – do Paraíso até o Ibirapuera – da monumental 23 de Maio.
Um dia foi que mudamos, não lembro exato. Meus pais e eu. Tanto foi que, eu voltando tarde da noite, rotina escola/trabalho, minha cama me aguardava – na Vila Guarani… Perto do final da Avenida do Café, belo nome! Pitoresco, pesquisando “fuçações” nos jornais do arquivo do estado, constatei. Nos anos 40, quem era “Avenida do Café” era a Avenida Arno. Na Mooca, não? Era.
Não me ocorre lembrar a denominação. Do logradouro – uma ruela sem saída, chão de terra, sem luz da Light nos poucos postes. Casa térrea que edificamos na Vila Guarani, anos 60. Gostar, eu, à época? Claro! Que não… Eu era apegado à Vila Mariana, senti quando mudamos. E gostar mais de Vila Mariana, que minha mãe? Só ela própria haveria…
Pois então no novo endereço, Vila Guarani, vizinhos de nós eram “seu” José e dona Amália, simpáticos portugueses. Ele, mecânico da Varig, no hangar ex-Real Aerovias, no Congonhas. Se bem me recordo, “seu” José ia ao Aeroporto, no dia a dia, pedalando a Monark azul – que tão longe assim não era.
O mecânico de além-mar, ele me confidenciou. Que lágrimas de emoção, a emoção da saudade… Lágrimas lhe gotejavam sobre o macacão de brim, lágrimas que brotavam desde o coração! Bastava ele simplesmente ver! Na pista do Congonhas, aquela aeronave… O belo e esguio Douglas DC-7C – que a própria Douglas chamava de “Seven-Seas”, majestoso avião! Que, igualmente como fizera com os pioneiros Constellation, a Panair “batizou” com nomes de bandeirantes!
E o que estremecia o coração do nobre lusitano, a ponto de os olhos marejarem lágrimas? Era que – o “bandeirante” DC-7C da Panair – fazia o “Vôo da Amizade”, São Paulo – Lisboa, pá! A bela garça, nas cores branco e verde, trazia a inscrição: “Vôo da Amizade – Panair do Brasil – TAP”! E mais: duas bandeirinhas pintadas, lado a lado, Brasil e Portugal! Emocionava-se o luso-brasileiro, “seu” José: duas pátrias, um só coração… Ver era preciso, voar, nem era preciso…
Meus pais e este que vos fala, nós ficamos pouco tempo na Vila Guarani. Ali, naquele final de Avenida do Café, lembro bem… Depois do café da manhã, todo dia, eu embarcava no monobloco da Paratodos, vermelho e branco. Letreiro: “Anhangabaú”. Lembro mais, eu trabalhava no… (?); ou na… (?) – bom, no Centro – acho que.
Vendemos a casa “guaraniense” ao simpático casal do Tejo e, brevíssimo período, à Vila Mariana voltamos, aluguel de novo. E, finalmente, nesse mundo de transações imobiliárias, compramos o sobradinho. Diz a escritura que, tal sobradinho, é de 1958, neste solo de Vila Gumercindo, que a Prefeitura denomina (ninguém fala) de Distrito Cursino. Só eu, moro cá faz mais de 40 anos! Exclamaria minha “vó” italiana: “Mamma mia!”. E a espanhola? “Diós!”, claro.
Neste sobrado, o destino me reservou o melhor de minha vida, entre outros melhores: minha outra família, cuja escalação é: Rubens, Helena, Diego e Alexandre, na exatíssima ordem cronológica de chegada! A nossa Família RHDA, de profundas raízes neste lugar. Raízes de jatobá! De baobá!
Enfim. SPMC, fico grato a ti, por possibilitar-me tais lembranças. Nada de significativo para São Paulo, claro. Significativo para mim, tais lembranças paulistanas. Jamais gotejei lágrimas da Panair; também não conheço Lisboa, sequer voei! Entretanto, navegando no site, eu voo um voo imaginário, ligando – tal qual o “bandeirante” da Panair – dois pontos: realidade e devaneio! Pois já que “navegar é preciso”, reviver também é preciso…