Em uma recaída saudosa de recordações e ocorrências e passando pela Av. Presidente Wilson, na Mooca, bairro irmão do Braz e adjacências, lembrei-me de fatos que, na época, não dei a importância devida, mesmo porque não era muito apropriada a menção desses fatos em qualquer redação ou menção em papos de esquinas. As ocorrências no continente africano com a queda de reinados existentes há vários séculos…
Pelos jornais e revistas aqui em São Paulo, pode-se sentir a enorme diferença nas publicações entre aquela época (1940\ 1950\ 1960) e atual, a recorrência de termos que, outrora, por tabus ou receios da opinião pública, não havia abuso. Simplesmente o redator recorria a um sinônimo ou eufemisticamente mencionava em um texto qualquer, rebuscava toda a sequência da crônica a fim de fugir da palavra correta, mas ofensiva aos leitores alheios a esta “ousadia”.
Com a permissão dos amigos leitores, vou recorrer ao tempo verbal presente o que pretendo contar. Todos os nomes citados são fictícios, por motivos óbvios e para que eu tenha um pouco mais de liberdade.
Pois bem, por volta dos anos da década de 1950, na eminência de casar, trabalho em uma empresa de embalagens, Shellmar, empresa americana que está localizada na Rua Pres. Batista Pereira, travessa da Av. Presidente Wilson, entre a Mooca e a Vila Prudente, conhecida como “ilha do sapo”, na função de desenhista.
Como vizinhos, temos uma indústria relativamente nova, a Kibon, fabricante e distribuidora de picolés, popularizando a venda em carrinhos, como fazem atualmente os ambulantes de guloseimas destinadas às crianças.
Temos, também, a Lorenzetti, Arno, Cia Antarctica e outras empresas de porte, todas localizadas em uma São Paulo em franco progresso, agasalhando iniciativas de porte, como essa grande metrópole exige.
Na Shellmar, no setor de desenho, somos três funcionários, com a grande artista Anna, alemã que relata a nós as atrocidades sofridas na Alemanha, perseguida que foi por ser judia. Muito simpática, mas enérgica nas atividades correlatas, como chefe da seção. O setor de gravação de cilindros tem como chefe o gravador suíço Sr. Henri, altamente técnico, favorecido pelo empirismo, adquiridos em seu país.
O ambiente é sempre bem amistoso, há bons papos e boas situações irônicas, como o que aconteceu com um porteiro, Benedito, alto, quase dois metros de altura, mas de uma simpatia quase infantil, tanto é sua inexperiência dos fatos da vida atual. Um dia, passo por ele e noto que está com uma lâmina apontando o que parecia ser um lápis. Ele me pergunta: “Seu Mudesto, meu lápis num escreve mais, acabou a ponta e não encontro mais o grafite, por mais que tento cortar essa madeira tão dura… o senhor pode ver se consegue?”
Logo vi que o que ele tem em mãos é a recém-lançada caneta esferográfica Bic, sem gozação, conto a ele e ele fica admirado.
Um dia desses, soubemos que foi contratado mais um gravador, de nome Waldemar Costa, moço de uns 27 ou 28 anos, afro-brasileiro.
Fomos apresentados, o Waldemar é muito simpático, educado tem, nas palavras proferidas, algo que foge um pouco do português comum. Exprime bem termos poucos usuais, delicada e corretamente, sem fugir de uma conversa sobre qualquer assunto. É elegante nos gestos, nobre nas atitudes, de uma bondade sem igual, sempre pronto a servir quem dele precisasse.
Como fanático leitor de contos policiais e de mistério, minhas eternas suspeitas de haver algo de, não errado, mas diferente nos dias que seguem, vou a fundo. Converso com Waldemar e ele se abre comigo:
“Modesto, não sou brasileiro, sou africano, meu nome, Waldemar, é o que recebi na pia batismal da igreja católica da Mooca, onde moro. Meu nome é Faissal, sou um… príncipe, descendo de família imperial. Meu pai, preso pelo rei Farouk, está sendo julgado por posse indevida do protetorado de sua responsabilidade.
Meu tio, irmão do meu pai, foi fuzilado, perdemos nossos bens e fugimos, eu e minha mãe viemos para o Brasil. Minha mãe, não resistiu à separação, faleceu algum tempo atrás. Estou sozinho aqui, aprendi a gravação graças a minha mãe que gozava de boas amizades, não quis ser mais muçulmana, para mudar meu nome fui batizado com o nome cristão, Waldemar.”
Poucos meses ele trabalhou na empresa, saiu e nunca mais soube dele.