Prestadores de serviço

O relato a seguir se passou em uma lavanderia, dessas de franquia, dentro de um hipermercado aqui na cidade de São Paulo, onde levei um vestido curto, preto, sem forro, com zíper e detalhes em metal em todo o comprimento da parte da frente:
 
– Boa tarde senhorita, trouxe esse vestido para lavar.
– Deixe-me ver… Esse é um vestido especial; se fosse comum custaria R$ 25 a lavagem, como é especial custa R$ 37. Vai deixar?
– Sim, quando ficará pronto?
– Bem, primeiramente tenho que avisar a senhora que os pelinhos que estão grudados nele (qualquer tecido preto gruda pelinhos) não tem garantia de que vão sair. Outra coisa, pode ser que esses detalhes de metal caiam ao lavar, não podemos garantir nada (os detalhes eram costurados no tecido).
– Oi? – respondi. Um vestido, segundo você, especial, não merece um tratamento especial na lavagem, ou seja, cuidado ao lavar por causa dos detalhes e atenção final, sendo escovado adequadamente para retirada desses pelinhos? Afinal de contas, aqui é uma lavanderia, com técnicas, suponho, de lavagem! Se fosse para lavar, correndo o risco de continuar com os pelinhos e cair os metais, eu faria isso em casa e na máquina de lavar, só assim os metais talvez fossem arrancados do vestido!
– Senhora, não podemos garantir nada. Vai querer deixar o vestido ou não?
– Antes de responder, me empreste aquele rolinho que está ali no canto, por favor (são aqueles rolinhos com papel colante que a gente passa em roupa para tirar pelinhos). Ela prontamente pegou o bendito rolinho.
Passei em uma parte do vestido e, milagre, os pelinhos começaram a sair com muita facilidade, para meu espanto e espanto da simpática criatura.
– Pois bem, feito esse pequeno teste, vou responder à sua pergunta: não, não quero deixar o vestido aqui, obrigada.
– Próximo, disse a garota, sem mover um fio de sua sobrancelha, cheia de pelinhos enroscados nos piercings.
 
Esse relato bem-humorado da situação vivenciada retrata a péssima condição de prestação de serviços com que nos deparamos atualmente: atendimento automatizado, pessoas despreparadas, sem raciocínio do que falam e fazem, com um discurso pronto e aprendido nesses cursos de capacitação para a função, que duram algumas horas, sem condições mínimas de atender pessoas e muito menos perceber o ridículo do que dizem e fazem.
 
Deixei a lavanderia entre frustrada e chocada com meu vestido debaixo do braço, mas, aproveitando que estava em um hipermercado, fui até a peixaria para garantir o jantar e desanuviar as ideias.
Lá encontrei um peixe em oferta com o seguinte cartaz: “Filé de Polaca, pacote 500 gr., preço R$ 6,90 kg.” Peguei dois pacotes e fui para o caixa. Lá, iniciou-se outro diálogo:
 
– R$ 13,80, senhora.
– Oi? No cartaz diz R$ 6,90 o kg, cada pacote tem 500 g, 2 pacotes totalizam 1 kg, portanto R$ 6,90 é o total que eu devo pagar.
– R$ 13,80, senhora, vai levar?
 
E lá vamos nós de novo, dá-lhe argumento, interpretação de texto, paciência, bem, mas isso já faz parte de outra história…