Com 7 ou 8 anos, fui viver na rua Sousa Coutinho era em 1957 ou 1958, a dois passos da Estrada da Lágrimas. Filha única de emigrantes espanhóis, lá ia eu por o Barrio do Sacoman a fazer rir, vestidinha toda de branco, bolsinho, chapéu, luvas, meias et sapatinhos.
Devia manter a compostura, nem correr, nem saltar e ainda menos ensujarme. De facto, é muito complicado ser filha única, pois não é nada fácil fazer tolices sem ser descoberta rapidamente.
Porém um dia que eu ia com pressa a Igreja São Vicente de Paulo, que se encontrava na via Anchieta, decidi de inovar na minha atitude e deixando a vizinhança espantada pus me a correr, correr… com tanta velocidade que os meus pés despegaram do solo escorregadiço de terra batida.
Sim Senhor!!! Estava mesmo a voar!!! Foi uma sensação maravilhosa.
Mais pouco durou. Ao chegar perto da rua Alencar Araripe donde passavam os carros, os autobuses, e se me lembro bem, até os bondes. Eu decidi por prudência moderar para suspender o meu movimento.
A minha impetuosidade era tal que lá caí de bruços no chão, manchando-me de lodo roxo.
Foi muito contrita que voltei a casa, esfarrapada e enfeitada de cor vermelhinha, cor da terra et do liquido que escorregava dos meus joelhos ensangüentados.
O sermão e a zurra que levei dos meus Pais, não me curou do espanto, pois cada vez que tive a oportunidade reiterei a experiência, e foi duplicada por dois.
A ida ía a VOAR da Estrada das Lágrimas até a rua Alencar Araripe, e a volta da missa era da Via Anchieta até a rua Alencar Araripe.
Meus Pais ignoram esta história, mais para mim foi gostoso de ter a liberdade de VOAR.
Sobre tudo porque VOAR foi o único desporto que eu tive a habilidade de fazer em toda a minha vida. Beijocas brasileiras para todos vocês.
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