Como o Lopomo costuma dizer, o que me inspiram são as lembranças. Não vou atrás de velhos jornais ou revistas, não pesquiso. Por isso, o que vou contar pode e deve ser corrigido por quem tiver informação mais exata. Antes de mais nada, quero dizer que corríamos de carro, sim, porém com veículos preparados para correr e somente na pista de corrida. No caso, Interlagos. Fora dali, não! Tenho carteira de motorista há 53 anos e nunca fui multado. Dirijo automóvel todos os dias, e pelo menos 35 km por dia. Meus netos e netas detestam andar comigo, porque ando muito devagar. Vamos à curva do pinheirinho, em Interlagos. Sempre na pista velha. A curva (na verdade duas, uma para a direita e outra para a esquerda, sucessivamente, com pavimento em descida) era em S bem curto. Havia um eucalipto prematuro, fino e um tanto desgalhado, porém no formato de longa pirâmide, ou seja, parecia um pinheirinho, daí o nome. Chegava-se à curva com o pé na tábua. Uns duzentos metros antes aliviava-se o acelerador, e assim o freio motor segurava o carro. Quando o giro do motor permitia, engatava-se a marcha mais baixa. Em seguida, toda a direção para a direita, toda para a esquerda e imediatamente para o centro, marcha superior e pé na tábua. Então uma rápida olhada para ver se o carro ainda estava na pista e em seguida outro problema, mas vamos ficar na curva do pinheirinho. No meio desta confusão toda que era a curva do pinheirinho tomada em alta velocidade, o carro do Ciro Caires ou do Celso Lara Barbieri (peço ajuda, não lembro qual dos dois!) perdeu a roda traseira esquerda, inteirinha, com tambor de freio e tudo o mais. O conjunto saiu saltando e pulando barranco acima, em direção ao público. O Lopomo diz que o pneu matou a miss Campinas. Pode ser, eu nunca soube onde a roda foi parar. Imaginem a competência do piloto: ele conseguiu controlar o carro sem a roda e encostou num mato ralo, mais adiante. Nem o desenrolar da corrida ele comprometeu. Era uma corrida de carreteiras, automóveis híbridos montados em oficinas artesanais, levemente ou muito modificados. Nas imediações da rua Barão de Limeira, em São Paulo, existiam ótimos especialistas. Para os mais novos, que não sabem: a carreteira bem radical era montada mais ou menos assim: um chassis de trilho, de Ford 29, um motor velho de alfa-romeu, mazerati ou ferrari recondicionado, caixa de câmbio de ônibus, caminhão, de cadilac, enfim, a que coubesse, carroceria acertada a martelo, óleo, água, gasolina, pneus novos (com câmara de ar), talento e muita coragem. O que resultou daquelas carreteiras está, guardadas as devidas proporções, nas corridas de fórmula 1. Um carro seguro, veloz, competitivo e emocionante. Quando dirigido com talento e muita coragem. Assim sendo, podem ver que pouca coisa mudou! Atenção meninos e meninas: corrida de automóvel não é coisa para amadores. Se desejar correr, comece no kart ou numa escolinha.
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