A Vitória da turma da Rua Bandeirantes

Vivíamos os anos cinqüenta. No começo da década o Brasil havia perdido a final do Campeonato Mundial de Futebol para o Uruguai, lá no Estado Mario Filho. Todavia, apesar da tristeza pela perda do título, a nossa turma da rua continuava a aproveitar o tempo livre sem deixar de lado os estudos. Afinal estávamos freqüentando o ginásio e não podíamos perder tempo. Uma de nossas brincadeiras mais emocionantes era descer a Av.Tiradentes até o Clube de Regatas Tiete do qual éramos sócios e após a entrada triunfal no clube, pegarmos nossos cabides/sacos, para efetuar a troca de roupa. Afinal éramos descendentes de assalariados que não podiam pagar aluguel de armários personalizados aos seus filhos muito queridos. Trocada a roupa, dirigíamo-nos para perto da garagem de barcos que praticamente beirava o Rio que emprestava seu nome ao clube. E aí sim, caiamos na água (acreditem limpa) e nadávamos alegremente até a outra margem, onde ficava o Espéria ou Floresta. Adentrávamos sorrateiramente ao clube e nos dirigíamos a porta de entrada da piscina Olímpica, com 50 metros de comprimento igualzinha a do nosso clube. Agora a turma iniciava uma conversa longa e animada com o encarregado de verificar as fichas médicas dos sócios para entrar na piscina. Seu Chico, um homem bonachão, rosto corado, um bigode muito branco, olhos vivos e risonhos ouvia as lamentações (essa era a tática) de um grupo de moleques que lhe pediam para entrar na piscina sem ter a ficha médica. Afinal, não tínhamos o dinheiro para pagar o exame médico que era exigido. Depois de muita conversa, o alegre senhor (nunca ouvi dele um impropério) permitia a nossa entrada. Era a vitória. Afinal não havíamos conquistado a Copa, mas "furar" a piscina do Espéria ou Floresta, atravessar o Rio Tiete a nado e voltar incólumes, era a maior vitória da turma da Rua Bandeirantes.