Lendo uma crônica da Vera Moratta em que ela lembrava os seus bons momentos no bairro do Ipiranga, eu, no comentário que fiz a respeito, lembrava também dele e afirmava que também tinha algumas boas lembranças e outras nem tanto. Porque me vinha na lembrança esse triste momento que passei e que vou relatar a vocês.
Tenho três filhos homens, todos eles registrados no Cartório do Ipiranga na Rua Bom Pastor, pertinho da Rua dos Patriotas. E a razão disso é que depois do nascimento do João que foi o primeiro, nós, eu e a Lourdes, queríamos uma menina, já tínhamos até o nome para ela, seria Lílian e tentamos. E nasceu o Gilberto. Deixamos passar o tempo e em 63 a Lourdes engravidou outra vez, pois a Lílian estava nos nossos sonhos. Mas outra vez o destino nos premiou com mais um menino o Carlos, que e o caçula.
Isso foi em 1964. Lembro que foi logo depois do golpe militar, e eu já sonhava e planejava sair do Brasil e pedia a meu amigo Osvaldo, que morava nos Estados Unidos, uma ajuda, para que me enviasse uma carta de responsabilidades, como já contei em outro texto, para conseguir o visto de imigrante. O mês de julho chegou, foi no dia sete naquela manhã, era uma terça-feira, ela acordou bem indisposta e com algumas dores que já eram os primeiros sinais que o parto era para breve, talvez para aquele dia. Eu morava no Brooklin Novo, na Rua Kansas. Então resolvi, levá-la para a casa da minha mãe no Braz, pois tínhamos que deixar as crianças com ela. Por volta das 11h chegamos ao hospital do IAPTC no Ipiranga, na Avenida Nazaré, bem ao lado do Museu. Fiquei na portaria esperando o resultado do exame e não tardou muito para que viesse a notícia de que ela já estava quase pronta para dar a luz. Como não tinha nem sala de espera alem do saguão, me aconselharam a ir para casa e que por telefone acompanhasse os acontecimentos.
Sai e fui para o centro e servindo os passageiros que me sinalizavam. E de hora em hora parava e telefonava de telefones públicos, e assim foi passando o dia até que às 5h da tarde, recebi a notícia que a criança era um menino e que havia nascido às 4h da tarde em parto normal e com muita saúde pesando quatro quilos. Aí me dirigi em direção ao hospital, pois haviam me assegurado que talvez eu pudesse visitá-los à noite. Pois era praxe do regulamento da maternidade, para o pai somente, visitar depois que ela sai-se da sala de parto.
Quando lá cheguei me disseram que trouxesse alguns objetos de uso pessoal, como escova e pasta de dentes, camisola, toalha, etc. E assim fiz e por volta das 7h30 estava de volta com tudo o que me pediram. Mas nem imaginava o que me iria acontecer em seguida. E muito mais! …..do que realmente poderia ter-me acontecido depois.
Já na recepção entreguei a enfermeira uma sacola com os objetos e perguntei se podia visitá-los por alguns instantes, mas meu pedido foi negado, e eu insisti dizendo que eles tinham me assegurado uma visita rápida. Mas não houve jeito, e aí eu tentei mostrar a minha frustração, dizendo a eles o como era penoso uma pessoa não ter condições financeiras para poder optar por um atendimento particular, como a Maternidade São Paulo na Frei Caneca. E assim estaria ao lado dela e do meu filho durante todo o desenrolar do parto.
Aí um sujeito que estava de terno e gravata lá no fundo, veio até mais perto e começou a me perguntar se eu por acaso não comia arroz e feijão? E que me desse por feliz, e não ficasse reclamando da vida. Aquilo me surpreendeu, mas mesmo assim eu não perdi a esportiva, e com certeza o que eu disse na replica causou um mal-entendido entre nós. Pois eu disse a ele que ele só dizia isso porque estava do lado de dentro do balcão (“nunca chamando ele para briga”), o que eu quis dizer é que: ele por estar do outro lado do balcão tinha livre acesso a todas as dependências do hospital. E depois disso fui saindo pela rampa do hospital que ia da porta de entrada até a Av. Nazaré, pois com certeza não haveria jeito de eu visitá-los com aquele tipo de tratamento. Quando já estava no meio da rampa esse sujeito (que depois vim a saber que era um médico) gritou lá da porta… Está fugindo por quê? …com medo?
Aí eu voltei dizendo a ele que havia um mal-entendido, porque aquele dia era um dia de paz para mim, pois meu filho acabava de nascer. E com a minha mão amigavelmente no seu ombro, tentava explicar isso a ele. E como eu não esperava uma reação tão violenta desse sujeito, ele me agrediu com um soco no rosto.
Isso me deixou alucinado, e como estávamos muito próximo um do outro, eu na minha reação instantânea lhe dei uma gravata, e ele deixou seu corpo ir ao chão e eu por cima, não parava de socá-lo e como ele não conseguia sair de baixo, empurrava com a mão minha cara, e com isso enfiou os dedos na minha boca e na minha alucinação mordi seus dedos. Até que alguém da portaria me puxou por trás para que ele levantasse e eu com as costas no chão ainda pude dar com meus dois pés na sua cara. Foi uma reação tão furiosa da minha parte, pois com aquele soco que levei eu perdi completamente a racionalidade, foi uma covardia da sua parte, pois tinha minha mão sobre seu ombro.
Aí voltei meus pensamentos ao porta-luvas do meu carro que estava estacionado na Av. Nazaré um pouco longe do portão de entrada, e como eu trabalhava até tarde da noite e na época havia muitos assaltos a motoristas de praça, eu levava um Smith Wesson calibre 32 para me defender se fosse preciso. Que tinha sido do meu progenitor. Nesse momento foi por Deus que eu comecei a correr em direção contraria do meu táxi, desci a Rua Coronel Diogo para tentar afastar do meu pensamento o que passou pela minha cabeça. E enquanto corria e descia aquela ladeira, já quase em frente ao Hospital Leão XIII, notava que alguém me acompanhava e gritando (espera…espera) e quando olho era um rapaz que tinha encontrado meu relógio que perdi na confusão.
Eu corria para me acalmar, pois havia perdido a noção das coisas. E depois cansado sentei na calcada lá embaixo perto daquele riacho que cruza essa avenida, e comecei a pensar no que eu poderia ter feito naquela noite em que teria que ser só de alegria, pois meu filho tinha acabado de nascer, infelizmente por culpa de um mal-entendido e de um homem que cursou uma faculdade, que tinha um título de doutor, mas que lhe faltava o que é mais necessário em um ser humano, que é a dignidade. E ainda bem que consegui me controlar e afastar dos meus pensamentos tudo aquilo que passou pela minha cabeça. E logo em seguida me desfiz do revolver que era uma lembrança do meu falecido pai.
Voltei triste para casa e telefonei para o hospital dizendo quem era. E que esperava que minha esposa não sofresse nenhum tipo de retaliação pelo acontecido e me pediram que eu não me preocupasse que tudo tinha sido um mal-entendido. No dia seguinte antes mesmo do horário de visitas fiz questão de prestar queixas ao diretor do hospital que muito gentilmente me recebeu em sua sala. Contei a minha versão do caso, pois com certeza o sujeito tinha contado a sua.
O diretor pediu desculpas pelo acontecido e até me deu razão, porque ele não entendia como o Dr. tinha ido atrás de mim até a rampa donde ouve o confronto. E quando tirei os óculos escuros que portava mostrei a ele o meu olho direito marcado, ele se desculpou pelo acontecido, e que acreditava em mim. Mas que o sujeito estava com os dois olhos marcados e com os dedos da mão enfaixados, talvez da mordida que lhe dei (quando tentou se desvencilhar de mim e pôs os dedos na minha boca), e que certamente aquilo tinha sido uma agressão mútua. Mas que com certeza poderia ter sido evitada se ele não tivesse saído das dependências do edifício, que era sua obrigação por ser um funcionário do hospital.
Mesmo depois de passados 49 anos do acontecido nunca irei esquecer desse dia que, para mim, tinha que ter sido comemorado com alegria pelo nascimento do meu filho, e por culpa de um homem indigno do seu título foi tão triste aquela noite. Às vezes penso nesses momentos de fúria que tive, mas nunca me arrependi, pois ele realmente me tirou do sério. E escondi da Lourdes pelo tempo que pude o acontecido, até que ela saiu três dias depois do hospital. Ela só estranhava os meus óculos escuros que eu nunca gostei de usar. Enfim são surpresas desagradáveis que a vida nos reserva.