Ah! Esses erres…

Ah! Esses erres…

Meu pai João nasceu em Campinas e foi criado em Rocinha (hoje, Vinhedo) junto a tiroleses e vênetos, imigrantes como toda a sua família.

Veio para São Paulo aos nove anos de idade. Era um contador de histórias e foi o seu caderno “Recordações” que me inspirou a registrar memórias neste nosso site.

Nunca esqueci que ele preferiu – ainda mocinho – um emprego em uma barbearia da periferia, onde havia apenas um frigorífico, a trabalhar no centro da cidade, onde teria mais conforto e as gorjetas, certamente, seriam bem mais gordas. E por quê? Porque o dono da barbearia era um senhor português que tinha uma biblioteca, coisa rara na época. Como havia pouco trabalho, ele leu todos os livros e se apaixonou por Eça de Queiroz. Praticamente, ele se exilou para ler.

Hoje, peço licença para contar mais um fato:

Geralmente aos domingos, eu e meus dois irmãos, todos já casados e com filhos, levávamos nossos pais para um almoço com a finalidade de estarmos todos juntos e tirarmos a mamãe e as outras mulheres da cozinha. Eram momentos muito bons em meio à luta pela vida nesta cidade que nos separa, mas também nos une.

Em um desses dias, o papai disse:

“Não quero ir a uma cantina, pois a melhor massa quem faz é a minha mulher. Vamos a uma churrascarria.”

Rimos e dissemos:

-“Não é assim que se fala, pai!”

Ele corrigiu:

-“Tá bom: churascarria.”

Rimos e ele corrigiu novamente:

-“Churascaria!”

Diante da nova crítica, ele se saiu com esta:

-“Vocês entenderam, não é? Então, ponham os erres onde quiserem!”

Ninguém mais conseguiu falar churrascaria sem se lembrar da história e do papai com muito carinho. Sua dificuldade com os erres virou uma piada interna muito saborosa para toda a família.