Igreja gótica de Nossa Senhora da Saúde

Quando da grande peste que assolou a Europa em meados do século XVI, o contágio chegou a tal extremo e todos os recursos médicos disponíveis na época foram feitos e o rei Dom Sebastião chegou a pedir ajuda aos médicos da Espanha a fim de tentarem debelar o mal. A peste negra, ou a peste bubônica, havia dizimado milhões de pessoas em toda a Europa, sem que se encontrasse uma cura para a doença.

O povo então, ao ver que os recursos humanos falharam, teve a ideia de recorrer à santa mãe de Deus, organizando procissões de penitencia a Nossa Senhora. Depois da diminuição dos casos da doença, foi escolhido o dia 20 de abril para o agradecimento a Nossa Senhora, pelos benefícios alcançados. Em face ao acontecimento, a Virgem Maria recebeu a denominação de Nossa Senhora da Saúde. Aqui no Brasil, em São Paulo, na região da Vila Mariana, foi erguida e entregue pelo então arcebispo de São Paulo, Dom Duarte Leopoldo e Silva, aos padres Agostinianos Recoletos, que em 19 de fevereiro de 1899 havia desembarcado no porto de Santos, iniciando suas atividades no Brasil, em São Paulo na região da Lapa.

Em abril de 1916, foi erigida no bairro da Vila Mariana uma capelinha denominada inicialmente Capela de Santa Cruz. A capela era de pequenas dimensões e os religiosos perceberam de imediato a necessidade de erguer um templo novo. Em 4 de Maio de 1928, foi colocada e abençoada a primeira pedra fundamental da atual igreja. A construção prosseguiu nos anos seguintes e depois de muito trabalho e da ajuda financeira oferecida pelos fieis, finalmente, em 7 junho de 1935, a nova igreja foi aberta ao culto com a benção do bispo Dom José Gaspar Alfonseca e Silva. Os serviços de acabamento feitos com todo requinte da arte gótica, da pintura e escultura. Em 1959 foi colocado o altar-mor e terminado o restante do presbitério.

O início da construção das catedrais trás a ideia da passagem do românico para o Gótico até que, por volta de 1800, o gótico ainda era considerado em alguns quadrantes como a essência do que era discrepante e de mau gosto. No século X, encontra a Europa em crise. O poder real, enfraquecido, foi substituído pelo feudalismo. Invasões ameaçam a França. Desprotegidos o povo se organiza em torno dos castelos feudais, únicas e precárias fortalezas. As catedrais, algumas igrejas como símbolo da vitória, seriam realizadas como casas do povo. Não mais esses templos seriam cheios de esculturas e desenhos tenebrosos, mas, seriam altas, imponentes, iluminadas.

Que suas torres pontiagudas tentem atingir as nuvens, livres do medo do fim do mundo, o povo animado pelo novo sopro de fé. As paredes de seus templos devem deixar entrar a luz do sol em múltiplas cores que lembrem a presença divina.

Da necessidade de construir catedrais e igrejas que correspondessem à euforia do misticismo do povo surgiu a arquitetura gótica. O gótico era uma arte imbuída da volta do refinamento e da civilização na Europa e o fim do barbarismo e do obscurantismo medieval. A palavra gótico, que faz referência aos godos ou povos bárbaros do norte, foi escolhida pelos italianos do renascimento para descrever essas descomunais construções, que em sua opinião escapavam aos critérios bem proporcionados da arquitetura. Foi nas universidades sob o severo postulado da escolástica, Deus como unidade suprema e matemática, que se estabeleceram as bases dessa arte eminentemente teológica. A verticalidade das formas, a pureza das linhas e o recato da ornamentação na arquitetura foram transportados também para a pintura e a escultura. O gótico implicava uma renovação das formas técnicas de toda a arte com o objetivo de expressar a harmonia divina.

A igreja de Nossa Senhora da Saúde, possui uma mistura de estilos. A parte externa, que dá para a Rua Domingos de Morais e vista na subida da Rua Santa Cruz para o colégio Arquidiocesano, parece ser de estilo gótico. O seu interior é riquíssimo em detalhes de anjos, figuras bíblicas, vitrais, símbolos e santos agostinianos. A torre principal mede aproximadamente 70 metros de altura, sendo seu estilo gótico quinhentista. Em ambos os lados da torre vislumbra-se as estátuas dos evangelistas Lucas e Mateus. O canto sonoro dos sinos está localizado no segundo patamar da torre e estão lá desde os tempos de sua construção. São movidos automaticamente e soam pelos ares da região ao meio-dia e às 6h da tarde, quando repicam sincronizados anunciando a Ave Maria. Também repicam em dias festivos anunciando ao povo as celebrações litúrgicas. O altar-mor possui um belíssimo Sacrário e baldaquino. No centro, ao alto, a imagem de Nossa Senhora da Saúde, ao lado de Santo Agostinho, Santa Monica, Santo Tomás de Vilanova e Santa Isabel de Portugal. As imagens de São Pedro e São Paulo estão localizadas nas laterais do presbitério. São consideradas as colunas da igreja. Nos fundos há dois pequenos altares. Mistério da Cruz no calvário e de Nossa Senhora Aparecida.

Essa igreja foi declarada pela Secretária de Esporte e Turismo como um ponto turístico da cidade de São Paulo, na época governada pelo Doutor Paulo Egidio Martins, sendo restaurada nestes últimos anos, devolvendo a beleza do seu interior e exterior. Essa igreja, no forte simbolismo teológico, fruto do mais puro pensamento escolástico, as paredes são a base espiritual da igreja, os pilares representam os santos e os arcos e os nervos são os caminhos para Deus. Além disso, os vitrais pintados e decorados ensinavam ao povo, por meio da mágica luminosidade de suas cores, as histórias e relatos contidos nas Sagradas Escrituras. Assim toda a edificação se tornou mais leve. A obra desta igreja deveu-se ao importante esforço comum da comunidade de Vila Mariana que contribuiu com dinheiro, ou com a própria força do trabalho.