Que saudade sinto da rua onde morava quando era criança. A ladeira de terra avermelhada e pedregosa era a extensão do quintal da minha casa. Nela eu descia com meu carrinho de rolimã a qualquer hora do dia, sem me preocupar em ser atropelado por nada. Raramente uma carroça puxada por um burro ou cavalo aparecia por lá para vender sardinhas, carvão ou qualquer fruta ou legume. No verão as chuvas da tarde provocavam uma enxurrada que corria pelo seu canto, e naquilo mais parecia um córrego de águas limpas, toda a garotada da rua brincava.
Que saudade das tardes de domingo, quando toda a família se reunia na casa do meu nono. Os adultos jogavam baralho enquanto as crianças brincavam, e o momento esperado por todos era quando o homem da machadinha tocava o apito de plástico, chamando a garotada para comprar seus doces. Como era gostoso comer um pedacinho de machadinha ou quebra-queixo. Até os adultos participavam. Já quase à noitinha, o rádio, do tipo capelinha, apresentava o programa Festa na Roça e toda família ouvia com atenção.
Nos meses de junho a qualquer hora do dia podia se ver balões caindo ou subindo, e nas noites de Santo Antônio, São João e São Pedro a rua se enchia de fogueiras, onde as famílias se reuniam para tomar quentão, comer bolo de fubá e batata doce. O céu ficava enfeitado por balões de todos os tipos e tamanhos e ninguém brigava quando algum deles caia por perto, naquele tempo as pessoas se conheciam e se respeitavam.
Que saudade eu sinto do meu nono no fundo do quintal cuidando das galinhas e das hortaliças. Sempre com seu colete preto e o relógio de bolso. Já com idade avançada ele ainda trabalhava em um pequeno barracão que havia ao lado da casa alugada. Com a falta de dinheiro e a dificuldade para se comprar até os alimentos básicos, por causa da segunda guerra, ele trabalhava para uma firma de nome Casoy.
Recordo-me que semanalmente um caminhão trazia peças daquelas antigas prateleiras que eram aparafusadas nas paredes das cozinhas, cujas varetas tinham um gancho deslizante onde se penduravam panelas, caldeirões e canecas. Havia um tanque de tinta aluminada onde meu nono, por imersão, pintava as peças deixadas e na semana seguinte eram trocadas por outra remessa. Ele também fazia canecas com latas vazias de extrato de tomate, leite condensado e até maiores como as de leite ninho.
A cidade cresceu e a rua mudou. Hoje ela faz parte do centro da Penha, os vizinhos nem se cumprimentam e andar por ela é muito arriscado. Mudei para São Miguel, que também era um verdadeiro paraíso em 1949, e a Rua Cooperema do meu tempo ficou na minha memória preservada para sempre.