Os melhores sempre morrem…

Houve uma época na qual a pista de Interlagos ficava permanentemente aberta. Vestígios de um grande portão aramado, pendurado em única dobradiça lembrava que a engenhoca costumava fechar o acesso, num passado mais ou menos distante. Tínhamos dezoito anos, portanto deveria estar no glorioso ano de 1954. Além dos dezoito anos, éramos felizes proprietários de um legítimo Zephir Six, carro inglês de passeio que podia ser transformado em belo carrinho de corrida, uma baratinha, como dizia minha avó. Matávamos as aulas e íamos correr em Interlagos. Com boa conversa e certo jeitinho, o Zephir verde-bandeira chegava aos 180 kmh, no final do retão. Volta e meia encontrávamos outros pilotos. O Miguel Ranieri, em seu Skoda, o Cristian Heinz, com o novíssimo Porshe, matando todo mundo de inveja… e o Mario Guidi, meu corajoso co-piloto… Um ou outro racha era disputado. Como equipamento de segurança, só fazíamos questão de pneus novos. Quando o racha era para valer, os perdedores faziam uma vaquinha e compravam pneus novos para o vencedor. A pista de Interlagos era bem diferente da atual, e nós aprendíamos uns com os outros os macetes para sobreviver. No final do retão havia uma curva para a esquerda, com o pavimento inclinado, o que era moda em certos países. Então fazíamos o seguinte: entrávamos bem por baixo, com o pé na tábua. O carro era levado pela força centrífuga para o alto da pista. Um rápido toque no freio, a direção totalmente virada para a esquerda e conseguíamos mergulhar na curva do lago. Um dia o Miguel Ranieri entrou pela metade da pista. O carro foi jogado para o alto e despencou no barranco do outro lado. Ele morreu. Doutra feita, vínhamos disputando com o Cristian Heinz, e quando percebemos e curva, já estávamos na metade superior da pista. O Cristian havia entrado por baixo, corretamente. Durante alguns segundos vimos aproximar-se a morte inexorável. Lembramos das faixas negras de borracha deixadas pela freada do carro do Ranieri e não usamos o freio, ao contrário, aceleramos e mergulhamos na curva do lago. Pagamos a nossa parte no jogo de pneus com enorme satisfação. Meses depois, o Cristian Heinz morreu, correndo em Monza. O Airton Senna, Doris Day, não havia nascido e o grande piloto da época era o Chico Landi. Nós também deixamos de assistir as corridas depois da morte do Airton. O que nos fascinava nele era a coragem. Estava sempre entrando em altíssima velocidade pelas metades das pistas, afoito e frio. Um homem, dos melhores!

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