Instigado por Johannes Luyten (minha infância 28/03/2007), que nos pediu que contássemos histórias de nossas ruas, eis aqui a minha.
Morava eu na Rua do Porto número que não me lembro, bairro do Itaim Bibi.
Para me situar já que não me lembro do número, morava ao lado da casa da dona Elza, que um dia me deu uma tremenda bofetada na cara – tinha eu, lá meus 9 ou 10 anos de idade. Motivo: seu filho, ovelha negra da turma, queria entrar na brincadeira de pique, já em andamento. Disse-lhe que não. Ele, munido de uma barra de ferro, deu na minha cabeça, perto da têmpora, ficando um galo bem grande. A brincadeira continuou. Estando eu no pique contando até 10 para depois procurar os escondidos. Quando terminei a contagem, e olhava para os lados tentando saber onde estavam os “fugitivos”, veio dona Elza, em minha direção e sem dizer uma só palavra deu-me uma tremenda bofetada na cara. Em frente, dona Laura e dona Elvira duas fofoqueiras da rua se espantaram:
– Que é isso dona Elza. Ficou louca? Batendo num menino indefeso?
Minha mãe ficou sabendo e ela uma covarde se trancou em casa e não deu as caras. Sorte dela que meu pai não ficou sabendo.
A casa do outro lado à esquerda ficando do lado de dentro, morava dona Antonia e seu Phascoal, pais de Neno, Vado, Orlando e Tota. Os três jogavam bola na rua e eu, como era pequeno perto deles, era colocado no gol feito de dois tijolos a uma distância de uns cinco metros um do outro. No jogo estava também o Dudu, filho de dona Izolina e irmão de Dondoca. Com me dei bem no gol fiquei com lugar cativo. Quando eu não estava na rua, eles iam a minha casa, batiam palmas, e diziam para minha Mãe: Dona Orlinda, chame nosso goleiro, por favor. Em frente, morava seu Fiori o sapateiro orgulhoso da rua do Porto e de todo Itaim. Nunca vi na minha vida um sapateiro tão caprichoso e bom como aquele. Sua meia sola durava quase que eternamente. Seu filho Tito, que era estudante, o ajudava nas horas de folga. Apesar de não ser de muitas palavras sempre me enchia o saco, era só estar por ali ele me chamava:
– Alemão! Quer ganhar quinhentão?
Como eu era louco por dinheiro, disse que sim.
E lá veio ele: Então vai à missa, pega o padre pela pinça, sacristão pelo culhão. Tó o quinhentão. Colocando a mão na parte de baixo do abdome.
Seu Fiori ria bastante, dona Carmem que sempre disse ter dado uma ótima educação para o Tito, ficou indignada com o que ouviu.
Meu irmão ouviu, eu contando para um amigo tal acontecido, não sabendo direito da história, foi falar para a minha mãe, que eu era quem tinha dito aquilo. Tomei uma surra.
Naquele tempo durante as festas juninas o nosso pensamento era só catar balão. E cada balão lindo que se via no céu. Durante o dia em que geralmente o céu estava azul, os balões mais lindos eram colocados no ar. Tinha balão de todo tipo. Balões Estrela e Cruz eram a predileção de quem gostava de fazer e soltar, vi uma ocasião balão Radio. Mas o que mais me impressionou foi um balão Elefante. Uma verdadeira obra prima, até a tromba saiu direito, e com ela levantada. Meu irmão José se transformou num balonista. Fazia balão desde pequeno. Tocha que nem ele, ninguém fazia. Era fazer o balão subir na certa. Ele fazia tochas padronizadas, elas eram pesadas e nem breu, mais ele usava, era só velas de parafina molhadas com querosene.
Tinha preferência em fazer balão Charuto de 96 folhas. De vez em quando ele deitava o balão que se transformava em barrica, de 4 bocas. Era uma festa. Já em 1958, um sábado a tarde, todo mundo olhava para cima. Tinha um aviãozinho tipo teco teco, querendo furar um balão. Eram várias tentativas em vão. Por incrível que pareça o piloto não conseguia varar aquela peça de papel de seda. Ouvia-se alguns gritos, quando o avião se aproximava dele. Mas quando ele por fim conseguiu varar o balão ouviu se um forte alarido que mais parecia um gol do Corinthians.
Aí se teve à dimensão que toda a cidade estava assistindo aquele espetáculo. Depois se ficou sabendo tratar-se de Olavo Fontoura, um hábil aviador que mais tarde (ano 1966) morreu quando de um desastre de helicóptero, que subiu dos fundos do quintal de sua casa no Jardim Europa, e ali mesmo caiu, em parafuso. O piloto sobreviveu, por estar com cinto de segurança. Ele, sem o cinto, bateu a cabeça no muro da sua própria casa, falecendo na hora. Quando da subida o piloto o advertiu, para colocar o cinto.
– Que é meu, está com medo? Foi sua resposta.
Quando terminava as festas juninas entrava as férias escolares. Aí o negócio era soltar quadrados (hoje pipa). Nesse metier era eu o cara especializado, pegava bambu verde na chácara da dona Ângela e afinava as varetas que mais pareciam macarrão, talharim bem fino. Eram quadrados leves. Fazia todo tipo de quadrados, Barrilete, Peixinho, Maranhão.
Usava sempre linha 24. Naquele tempo não existia ceról. O rabo era de pano (hoje rabiola de saco plástico de lixo). Para derrubar outros quadrados a gente colocava na ponta do rabo uma rolha de garrafão de vinho com uma gilette infincada nela, para atingir a linha de outro. Enquanto os quadrados não enroscavam nos pés de eucaliptos da rua João Cachoeira com a Rua do Porto onde ficava o curral de vacas do seu jacinto e a casa da dona Virginia, tudo era festa.
Na casa da dona Elvira, morava além dela e seu Salvador, também sua filha a Pina, seu marido Paquito e a filha Ivone, que tinha a minha idade.
Um dia eu sonhei que seu Paquito tinha morrido. Logo pela manhã minha mãe foi comprar pão e leite, chegando esbaforida em casa dizendo a meu pai: Ângelo sabe quem morreu? Seu Paquito. Morreu dormindo. Puxa ele não tinha nada!
Aí ficou uma bela viúva na praça. A Pina, que além de bonita, era de uma exuberância a toda prova. Começou a chover gaviões no pedaço. Tinha nego que até lavava a louça do almoço para ficar bonito no pedaço.
Um dia um daqueles caras que ia todo domingo lá bater um papo e ver se conseguia uma boquinha com a Pina – ficava ele na calçada que era em frente minha casa, mexendo com minha irmã, até então com 14 anos de idade – um dia meu pai pegou-o em flagrante. Atravessou a rua e foi falar com ele:
– Olha aqui rapaz não fica mexendo com a minha filha, viu?
O idiota fez menção de dar um soco imitando lutador de Box. Nem percebeu que tomou um soco pelo meio da cara, que o melado começou a correr pelo nariz.
Caído ao chão ia tomando alguns chutes pelo corpo. Foi quando dona Laura, que outra coisa não fazia se não ficar na rua bisbilhotando a vida alheia, vendo aquilo correu e gritou:
– O que é isso seu Ângelo? Agarrou por traz e o tirou da sanha dos ponta pés.
Dona Elvira era católica daquelas que fazia tudo pela igreja de santa Teresa, para puxar o saco do Frei Bento até o banheiro lavava se preciso fosse. Mas aproveitando-se de que seu filho Mário tinha uma doença que médico algum conseguia saber de que se tratava e ouvindo o conselho de uma amiga para levá-lo a um centro espírita, ela transformou-o em santo e abriu um centro espírita em sua casa.
Num país eminentemente católico, ela ousou em montar em pleno início da década de 1950 um centro espírita tipo Alan Kardek.
E não é que muita gente ia lá para receber um passe do novo receptor espiritual… As seções iam até tarde da noite.
Certo dia Túlio que morava ao lado estava em seu estado normal. Olhos esbugalhados, nariz vermelho que nem um pimentão e com a cara cheia de cachaça. Ouviu murmúrios e não deixou por menos, gritando: Mário filho de uma puta, vem curar minha bebedeira!
Do lado do “centro” estava à casa de dona Laura que adorava fazer uma festinha. Aproveitava-se disso para ficar a par da vida alheia. Nesse evento estava toda a família reunida. Dona Laura seu Antonio (avós) Osvaldo e Irene (pais) Humberto, Izabel e Túlio (tios) e mais vizinhos e outros parentes.
Presente também seu Alfredo Cunha, professor do Aristides de Castro e delegado de polícia do distrito do Itaim, cuja delegacia ficava entre a casa Pais e o rink de patinação.
Seu Alfredo era o chamado colher de festa, sua presença era para fazer a oração ao aniversariante. Sempre um discurso inflamado que mais parecia político demagogo.
Em sua oração gesticulando esbarrou a mão num copo, com este caindo ao chão.
Túlio que estava ao lado não deixou por menos. Caiu? Dana-se! Quebrou? Foda-se!
A família de dona Laura se mudou para o Caxingui. Seu Túlio foi encontrado morto na calçada da rua Manoel Jacinto próximo a Avenida Francisco Morato.
Nós morávamos em casa alugada, meu pai pagava 200 cruzeiros por mês. Dona Ângela vivia enchendo o saco do meu pai e de dona Irene que morava nos fundos, queria ela aumento do aluguel.
Dona Irene nem dava bola. Pelo contrário, ria na cara dela. Meu pai não dizia nada e ia guardando aquilo na cabeça. Num domingo quase na hora do almoço ela foi amolar meu pai, e ai, a coisa fedeu. Meu pai pegou a picareta e foi atrás dela. Os dois eram gordos.
A sorte era que o portão estava fechado e enquanto meu pai virava a tramela para abrir o portão, deu tempo para ela se distanciar. Foi muito engraçado. Da nossa casa a dela tinha mais de 100 metros. E ela correndo na frente e meu pai atrás 5 metros de distância, com aqueles passos de gordos. Quando meu pai estava quase alcançando, eis que vinha chegando nossa tia Julia. Ela deu um grito tão grande que meu pai estancou.
Um ano e pouco depois tanto nós, como dona Irene e seu Osvaldo, mudamos.
Nós fomos para a Vila Olímpia e nossos vizinhos para o Caxingui.
Meu pai fez questão de pagar o último aluguel e foi levar a chave na mão dela, dona Ângela.
Dona Irene de marra deixou a chave na porta da sala e não pagou o último aluguel.
No dia seguinte fomos para a escola, grupo escolar Aristides de Castro, e dona Ângela estava na nossa ex. casa com outras pessoas.
Vendo que eu e meu irmão estávamos passando por lá ela, disse bem alto.
– O seu Ângelo… que foi homem, veio me entregar a chave na minha mão. A dona Irena, aquela filha de uma putana, deixou a chave na porta e não pagou o último aluguel.
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