Extraordinária formatura do Dr. Haylton

O irmão caçula de meu pai era o mais falante, brincalhão e sabia dos bordões dos humoristas do rádio e da TV. Aonde ele chegava se instalava um ambiente de festa. Criava curiós e canários; era um festival de cantos em seu apartamento na Rua São Paulo. Mais tarde mudou-se para a Aclimação e acabou-se a adorada criação.

Trabalhou como servidor público estadual e com o passar dos anos foi sendo promovido por mérito até que chegou a um obstáculo muito difícil: só poderia continuar a progredir na carreira se tivesse um curso superior.

Assim sendo, poderia assumir um cargo de chefia. Na geração de meus pais, a que ele pertencia, ninguém havia passado da quarta série do ginásio. Desafios na vida de meu tio eram para ser vencidos e procurou saber como recuperar o tempo para conclusão do Ensino Médio.

Fez cursos, estudou muito, e naquele tempo as provas eram realizadas por todo o país e ele não esmorecia. Arrumava as malas e ia tentar a eliminação de mais uma matéria, mesmo que fosse em outro estado. Conquistou o seu intento. Estava agora habilitado para fazer o vestibular. No ano de 1973, aos 40 anos de idade, começou a frequentar o curso de direito na vizinha cidade de Mogi das Cruzes. Foi uma luta! Trabalhar durante o dia e à noite, viajar com um grupo de colegas de carro, que era em rodízio, para fazer o curso. O sacrifício durou um ano e aí surgiu a possibilidade de transferência para a capital na FMU.

Surgiu mais um ônus na mudança, o curso que iria durar quatro anos em Mogi, passou a cinco em São Paulo, por diferenças curriculares. Nenhum problema. Ele sempre foi muito positivo e não se abalava por pouca coisa. E chegou lá. Aos 45 anos, se tornou o único de sua geração na família com diploma superior. Conquistou o direito a assumir uma chefia em sua repartição e ganhou o respeito e a admiração de toda a família. Não é que isso não existisse, é que para nós os sobrinhos da geração seguinte o seu ato representou um resgate de dignidade, pela sua garra e pela dificuldade das famílias mais humildes e vindas do interior, em patrocinar estudos aos filhos. Na primeira metade do século XX, as crianças começavam a trabalhar mais cedo ainda do que hoje, que a lei nem permite, e obviamente o abandono das escolas era perfeitamente aceito como forma de auxiliar no sustento familiar. E existia o agravante de que as pequenas cidades interioranas não possuíam sequer o ginásio para atendimento à população.

Um dos motivos da migração dos interioranos para a capital era a formação dos filhos, se bem que o foco no trabalho era prioritário. Primeiro a sobrevivência, depois os estudos, se possível. A façanha de meu tio Haylton foi um grande exemplo, em especial aos sobrinhos mais jovens, e significou mudar a escrita ou remar contra a maré e, também, a opção em batalhar pelo sucesso ao invés de se acomodar na vida e ficar choramingando oportunidades perdidas.

O mais novo de meus tios tinha uma aparência especial, a cara da vitória! Salute, tio Ito.