Ainda bem que hoje em dia não é mais assim

Alcides terminou o segundo grau na E.E. Prof. Jácomo Stávile, na Freguesia do Ó, escola construída em finais dos anos 50 (para eterna tristeza dos amantes do futebol várzeano), no exato mesmo local onde havia o campo do saudoso e popular time do Botafogo, onde jogaram grandes craques de futebol amador da Freguesia do Ó, como o Miltinho, o Adelino, Vidjão, Horácio e seu irmão e tantos outros que com o passar dos anos já não me lembro mais.

Quase que diariamente, ao término do nosso turno escolar matinal, eu e outros amiguinhos de bairro, que estudávamos no Grupo Escolar Padre Manoel da Nóbrega (o missionário jesuíta fundador de nossa querida cidade), não confundir com o querido Manoel de Nóbrega, criador da famosa Praça da Alegria, às vezes até sem o almoço, íamos direto para nossas peladas nesse campinho do Botafogo e lá, juntamente com o Alcides e outros companheiros que estudavam no Jácomo, jogávamos até as 15h, e só depois disso íamos para casa.

Quando terminou o segundo grau, como acontecia com a maior parte dos meninos daquela época, Alcides não quis mais estudar e seu pai, seu Antônio, que era duro na queda, cansado de suas vadiagens e notando que o menino agora já mocinho, livre do exército, continuava longe da escola, disse-lhe: Não quer mais estudar? Pois você então vai trabalhar.

Comerciante famoso que era no bairro, resolveu falar com vários amigos seus e dessa forma conseguiu chegar a um político muito influente e que no passado havia sido seu colega de escola.

– Oliveira! Meu querido e velho amigo! Lembra-se do meu filho? O Alcides! Isso! Aquele que você dizia que era muito bonito porque não se parecia comigo e sim com a mãe. Pois é, terminou o segundo grau e não quer mais estudar e anda meio à toa, será que você não consegue nada para o moleque não ficar em casa vagabundeando e armando confusão na rua?

Após três dias, o amigo Oliveira liga:

– Tonhão, já tenho um trabalho para seu filho. Assessor da Comissão de Bem-estar no Congresso R$ 25.600 por mês para começar, você acha que está bom?

– Tu tá louco Oliveira! O moleque recém terminou o colégio, com um emprego e um salário desses, aí que o pilantra não vai querer estudar mais, veja se consegue algo mais simples.

Dois dias depois:

– Tonho, consegui o que você queria: secretário de um deputado amigo, o salário é modesto, apenas R$ 21.000, “tá” bom assim?

– Pelo amor de Deus Oliveira, você “tá” brincando comigo querido, eu quero algo com um salário bem menor, quero que o salário desperte nele a ideia de que só estudando muito e se preparando alguém consegue vencer na vida… Consegue outra coisa querido.

– Olha Tonhão, a única coisa que eu posso conseguir por aqui, nessas condições, é um carguinho de garçom para servir cafezinho no Congresso, mas aí o salário é uma merreca mesmo. Perto de 12 a 15 mil por mês e nada mais.

– Por Deus Oliveira nem deixe o menino ouvir isso, pois se ele souber jamais voltará para os estudos, eu quero algo perto dos mil a R$ 1.500 para começar.

– Aí querido, assim fica muito difícil para eu conseguir!

– Mas por que Oliveira? Não estou entendendo.

– Porque cargos com esses salários só pode ser conseguido por concurso e estão destinados para professores, educadores sociais, policiais e todos esses cargos exigem curso superior, mestrado, etc. Fica bem mais difícil e fora das minhas possibilidades querido companheiro.