Tinha um amigo no bairro do Braz que conhecia desde que eu era criança, o nome dele era Eufrásio. Ele era um sujeito bem alegre e trabalhava com ferro velho. Tinha um caminhão velho que andava por São Paulo à procura de sucata e ia sobrevivendo relativamente bem, até que um dia ele ia subindo a Avenida Lacerda Franco, no Cambuci, e em um acidente seu caminhão tombou e o assoalho, que era todo de madeira, puxou o câmbio sobre as pernas dele e com isso ele fraturou a coluna vertebral e ficou paraplégico pelo resto da vida.
Como era um homem solteiro, vivia em um quarto, em um cortiço que era do irmão dele. Eu tinha muita pena dele e vinha buscá-lo todos os meses, e o levava até a Avenida Nove de Julho para receber sua aposentadoria no IAPTC, que era o serviço social dos motoristas em geral. Carregava ele de seu quarto até o carro e depois estacionava na calçada e vinha um funcionário trazer-lhe a sua pensão no carro. Todos tinham pena dele. Até que um dia lhe deram uma cadeira de rodas e aí ficou mais fácil para ele, pois sempre tinha alguém que o levava para dar umas voltas pela rua, ou ele ficava na porta do cortiço apelidado anos depois de Mineirão.
O Eufrásio era corintiano fanático desde criança e não perdia uma transmissão radiofônica dos jogos do Timão. Até que um dia arrumou uma maneira para ele poder assistir aos jogos no Pacaembu. E com isso, como eu o levava todos os meses para receber sua aposentadoria, ele me pediu se eu podia levá-lo para assistir a alguns jogos com ele. Como disse, tinha pena da vida que ele levava e disse a ele que não seria fácil, pois como iríamos subir com a cadeira de rodas nas arquibancadas e arrumar um lugar para ele? E, além de tudo, podia haver alguma briga e isso era perigoso. Mas ele já tinha, não sei com que meios, arrumado para ver os jogos dentro do campo. Disse-me ele que foi por intermédio do Osvaldo Brandão, que era técnico do Corinthians naquela época, isso no fim de 1964, começo de 1965, coisa que durou pouco tempo porque eu deixei São Paulo em junho de 65 e não sei como ele se arrumou depois disso.
Eu o levava no meu carro até a Praça Charles Miller, estacionava nas imediações e levava-o com a cadeira até a entrada dos vestiários (os antigos) que ficavam ao lado dos portões monumentais (hoje essa parte do estádio me parece que é um museu ou coisa parecida), mas entravamos pelos vestiários do Corinthians, aí eu o deixava sentado em uma cadeira, levava a cadeira de rodas pelo túnel até o campo e vinha buscá-lo e carregava-o até o campo e normalmente ficávamos quase ao lado da mesinha do representante da Federação. E dali assistia ao jogo. Para mim não era fácil porque, além de ter que ficar de pé o tempo todo, não podia torcer, pois não era permitido.
De acordo as regras do jogo, todas as pessoas que estão dentro do quadrilátero e que não são atletas tem que ser imparciais. Lembro-me do primeiro jogo que vi com ele nessa situação: era um jogo contra o Vasco pelo torneio Rio-São Paulo e quando o Timão marcou o primeiro gol eu comecei a gritar e pular e logo em seguida o arbitro veio me perguntar quem eu era e o que estava fazendo ali, aí eu expliquei que estava com o homem paraplégico e ele me expulsou do campo. Aí falei com o representante e até o Brandão interferiu e se arrumaram as coisas. Depois disso, o Timão marcou mais dois e tive que bancar o mudo e surdo.
Era bacana ter aquele contato direto com todos os jogadores e vendo tudo o que acontecia dentro do campo. Mas não era fácil ter que ficar imóvel, mudo e surdo em momentos tão emocionantes como quando seu time do coração marca um gol ou faz uma jogada fora de série. De qualquer maneira, sinto saudades desses tempos.