No final do ano de 1963, eu com nove anos, morava em uma calma vila situada no número 1020 da Rua José Maria Lisboa, entre Peixoto Gomide e Alameda Casa Branca. Meus pais sempre se esmerando em nossa educação insistiam em sermos bem educados, cordiais e respeitosos com todas as pessoas sem qualquer distinção. Meu avô, que era um pouco mais rígido com a educação e gostava de frases feitas dando o seu recado com objetividade, como na frase: "Quem fala demais, dá bom dia a cavalos!".
É óbvio que mereci aquela frase por ser tagarela demais e até com pessoas desconhecidas, e aí residia o meu grande erro. E paguei caro pela tagarelice. Pela manhã, estacionou um fusquinha da Companhia Telefônica bem em frente a nossa casa. Atento a todo barulho e novidades, abri o vitrô e vi dois funcionários com o uniforme cinza, tocando a campainha da casa de fronte à nossa, percebi que se preparavam para ir embora, pois não havia ninguém em casa. A minha curiosidade somada a vontade de ser educado, servir, fazer favores falou mais alto e de casa perguntei se eles iam instalar um novo telefone na casa do vizinho; lembrei-me de que as visitas de instalação demoravam muitos meses e até anos para ocorrer e, não encontrando pessoas na casa, aí é que iriam demorar mais uma eternidade. Todos adultos comentavam isso.
A resposta que recebi não foi conclusiva e eles sem me dar importância foram caminhando em direção ao carro. Eu já ia voltar aos fundos de casa onde fazia o meu dever escolar, quando escutei as palmas. Olhei pelo vitrô e lá estavam os dois caras da Telefônica. Tudo o que me foi perguntado eu respondia com clareza e rapidez, sempre pensando em ajudar. A primeira pergunta foi: "Vocês têm telefone em casa?" Respondi que sim. "Vocês têm extensão?" Disse que não. Aí o boquirroto, querendo sempre fazer favores soltou a pérola: "Mas temos um aparelho de reserva, guardado lá no quarto de meu pai".
Os aparelhos de disco daquela época eram pretos, pesados, feitos de baquelite e muito caros. O funcionário, na maior cara de pau, falou que todos os aparelhos pertenciam à Companhia Telefônica e me pediu para buscá-lo. Subi a escada feito um foguete e entreguei o aparelho com a convicção que estava salvando o Tiradentes da forca. Os dois espertalhões foram embora com o aparelho e eu entusiasmado com minha gentileza, quase não me continha em contar aos meus pais o meu grande feito. O desfecho foi muito triste e dolorido e nem gosto de repetir o que ouvi e passei.
Burraldo foi o nome mais carinhoso que recebi, dentre outros; esse era um esquete famoso do rádio que vinha sendo aproveitado na TV. Nunca pude deixar de valorizar o meu avô com seus ensinamentos diretos e a frase inesquecível era: "Quem muito fala, muito erra!". Grazie indimenticabile nonno.
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