O último ônibus

Ele estava ali parado no ponto, esperando o ônibus passar. O ônibus vinha do ponto final, na Praça Salvador Correia, no Capão Redondo, e ia para o centro da cidade no Vale do Anhangabaú. Naquela hora da noite a garoa descia na vertical, difundindo no ar gotículas finas e geladas. Ele levantou a gola do paletó até o pescoço, desceu a aba do chapéu até a altura dos olhos, meteu as mãos nos bolsos das calças. Naquele instante, o nevoeiro tomou conta da copa das árvores. No avanço das horas fazia muito frio naquela noite na região do Capão Redondo. Olhou para o relógio de pulso: dez e trinta e cinco marcavam os ponteiros.

Já era tarde da noite naquela longínqua região da cidade. Vez ou outra ia até o meio da rua para ver se avistava os faróis do ônibus. – É bem provável que já tenha passado – pensou. Algo gelado lhe percorreu todo o corpo e uma sensação de medo tomou conta do espírito. – E se ele já houvesse passado? Naquele tempo não havia nenhuma alternativa de outra condução. Amaldiçoou a futura sogra que tinha brigado com ele por causa de futilidades. Se não tivesse havido no mês passado aquele episódio de banal discussão no rol de entrada da Biblioteca Municipal de Santo Amaro com certeza, se acaso perdesse o último ônibus para o centro da cidade, podia ter voltado para a casa de Adriana e ter dormido lá até o dia seguinte.

Achou que era uma besteira ir dormir lá. Afinal das contas, não iria se sujeitar aos caprichos da futura sogra. Tinha lá os seus brios e não precisava lançar mão de tal expediente. Ela que se danasse. Mas apesar da situação, a coisa não era bem assim. O lugar era deserto, sem nenhuma possibilidade de abrigo em caso de chuva forte. Além do mais, estava no quilômetro 23 da Estrada de Itapecerica, muito distante do Largo Treze de Maio no centro de Santo Amaro, onde teria como alternativa a possibilidade de tomar um bonde que, apesar do longo intervalo de espera, corria a noite toda para o centro da cidade. Viabilizou essa alternativa caso perdesse o último ônibus para o centro da cidade. Porém, ele ainda estava ali parado, diante do ponto do ônibus esperando pelo último que devia passar naquela hora. Consultou mais uma vez o relógio de pulso: agora marcava dez e cinquenta da noite.

Medindo os passos, foi mais uma vez para o centro da rua deserta para espiar. Nesse instante alguém atravessou a rua em sua direção. Vinha ao encontro dele. Tinha certeza que iria acontecer alguma coisa desagradável. Ele ficou gelado sem saber o que fazer. Apesar de estar nos anos 60, a cidade era pacata, quase sem nenhuma violência, mesmo assim, ficou preocupado com a situação. O homem se aproximou. Felizmente ele era do bem.

– Boa noite amigo! – O senhor está esperando pelo ônibus para o centro da cidade?
– Sim!
– Infelizmente lamento e sinto na obrigação de informá-lo que a esta hora da noite não tem mais ônibus para o centro da cidade. – O último passou aqui pelo ponto as dez e quinze.

Ele enregelou todo, porém, agradeceu ao homem. Olhou com desalento para a escura Estrada de Itapecerica. O que fazer agora? Teve a tentação de retornar para a casa da namorada Adriana e pedir arrego para a futura sogra e pousar ali naquela noite. Rapidamente mudou de ideia. Pensando bem, não iria se sujeitar aos caprichos da sogra. Tinha agora que enfrentar a situação. O jeito era caminhar pela estrada deserta, enfrentar a possibilidade provável do surgimento de cães dos sítios que naquela época se abeiravam junto da estrada. Era uma maçante, uma terrível aventura, naquela hora avançada da noite. Apanhou no meio dos arbustos um lenho para se proteger de um eventual ataque de algum animal que pudesse surgir do meio do mato. Apressou o passo. Mais de pressa não poderia andar.

Garoava, sempre. Mas ali naquele trecho da estrada, o nevoeiro tinha abrandado um pouco e já podia avistar entre uma fatia do céu um arremedo da lua, querendo furar o bloqueio das nuvens escuras para espiar os caminhos úmidos do lugar. Afinal das contas, era ele um trouxa. Não iria mais procurar Adriana, aquilo era uma verdadeira maçada, um sacrifício inútil, porque não via nenhuma expectativa de reconciliação com a futura sogra. Viu as horas passar. Duas e meia da madrugada. Antes das três e meia da madrugada não chegaria ao Largo Treze de Maio.

Fez um esforço para que as pernas não parassem. Estava agora de fronte ao Clube de Campo do Banco do Brasil. Uma luzinha mortiça iluminava um pequeno trecho da estrada. Teve uma pequena sensação de alívio, porém, aquele aparente sentimento se desfez logo, porque ainda tinha que caminhar muito até atingir a ponte velha sobre o Rio Pinheiros. Sentou sobre uma pedra avermelhada na beira da estrada para descansar um pouco. Passou o lenço no rosto molhado para limpar os pingos da garoa. Agora já ao longe, avistava as luzes dos postes de iluminação da Avenida João Dias. Sentiu uma sensação de alegria. Estava próximo ao Largo Treze de Maio. Olhou mais uma vez para o relógio que àquela hora marcava três e quarenta e cinco da madrugada. Fechou a cara. A calça estava toda respingada de lama. O nevoeiro havia voltado e agora já atrapalhava a vista.

Aquele maldito ônibus podia ter passado às dez e meia da noite, quando ele chegou ao ponto de parada na Estrada de Itapecerica. Ficar com raiva de si próprio era coisa pior do que poderia acontecer. Porque não havia se informado na padaria quando ali chegou. Com certeza, os habitues do balcão dos pinguços poderiam lhe informar sobre a passagem do último ônibus. Agora era tarde de mais. Olhou para trás, viu o negrume da escuridão na estrada de Itapecerica da Serra banhado pelo espesso nevoeiro. Passou ralando sobre a ponte velha do Rio Pinheiros. Avistou os primeiros postes de iluminação pública. Acabara de adentrar em uma praça em direção ao Largo Treze de Maio. Começou a bater os pés molhados no asfalto da rua. Agora o pensamento tinha ficado para trás, depois da trágica comédia do último ônibus que passou por lá.

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