O matuto e a Sexta-Feira da Paixão

Está se aproximando mais um feriado que finaliza para nós brasileiros, o último final de semana prolongado, considerado pelos economistas, em termos financeiros, ruim para o país (muitos feriados). Engraçado é o nome dado: "Semana Santa". E as outras 51 semanas será que não são santas? (risos). Na Igreja Cristo Rei, lá no Tatuapé, para nós católicos, a comunidade juntamente com os Marianos e as Filhas de Maria representavam todos os anos a "Paixão de Cristo". Até que era bem feito porque eram todos amadores e faziam o melhor que podiam. Tinha lá os seus deslizes, até para aqueles que a fala era a mínima possível, por exemplo, o Brardo, que fazia o papel de "cego", pedia passagem no meio do povo dizendo: – Passagem, passagem a quem Deus privou da luz – dizendo: – Passagem, passagem a quem Deus privou da cruz, só risos.

O padre Chiquinho, da comunidade do Central Parque do Bairro da Lapa, vigário da Igreja São Pedro, mineiro, era um contador de "causos". Sua homilia era fantástica, sempre com uma história sobre o tema a ser pregado naquela semana. Conta ele: – O matuto morava em um sítio e tinha um filho, que crescia no meio das plantações, dos córregos, das pastagens, vivendo com toda liberdade que a vida lhe proporcionava. Nunca tinha ido à cidade e nem interessa conhecer, afirmava para o pai. Um dia, ele já moço, o pai convidou para ele ir até a cidade e que voltariam logo, só para ele ter uma ideia de como era a cidade Grande. Lá chegando, disse para o filho seguir adiante naquela rua que daria em frente à Praça da Matriz, para ele conhecer o local e ficar admirando os pássaros que lá estavam cheios deles e que esperasse, porque logo estaria indo embora.

Era Sexta-feira da Paixão e a Igreja estava encenando a "via sacra", onde Nosso Senhor carregava a cruz com o povo seguindo atrás gritando: – Crucifica-o. Na porta da Matriz, amarraram Cristo na cruz e ficou lá exposto com o povo blasfemando para sua morte. Sentiu uma dor no coração e começou a chorar com pena daquele rapaz. Que teria feito ele para tanta crueldade? Assim que o pai chegou, pediu para irem logo embora, e que nunca mais tornaria a voltar à cidade, porque o povo de lá era muito ruim. Apesar da insistência do pai para voltar à cidade ele sempre recusava.

Passou um ano e um dia, de tanto insistir ele acompanhou o pai até a cidade e foi direto para a Praça da Matriz. Coincidentemente era a Sexta-Feira da Paixão, e lá estava Cristo novamente com a cruz nas costas, apanhando e o povo gritando para crucificá-lo. Ele encostou-se em uma árvore e começou a rir. Uma beata que estava ao seu lado ficou indignada e perguntou se ele não tinha dó daquela cena em que Cristo estava sendo açoitado, no que ele respondeu:

– Escuta aqui minha senhora, "dó" eu não tenho não, porque esse cara é muito teimoso. O ano passado já fizeram isso com ele, quem mandou voltar aqui!

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