E o garotão chegou lá!

“Ó quebra, quebra gabiroba eu quero ver quebrar. Ó quebra, quebra gabiroba, eu quero ver quebrar. Ó quebra, quebra gabiroba, eu quero só te amar. Ó quebra, quebra gabiroba, eu quero só brincar. Ó quebra aqui e quebra lá, eu quero ver quebrar.”<br><br>“No Rio de Janeiro<br>que é a terra do amor<br>Só se vive sem dinheiro<br>mas se goza com calor.”<br><br>Essa é a transcrição da letra de uma das marchinhas mais populares do carnaval de 1930 em todo o Brasil juntamente com "Tá'hi" – Prá você gostar de mim', com Carmem Miranda. As duas marchinhas marcam o ano de 1930 a ferro e fogo e Quebra, Quebra Gabiroba tem muito a ver com essa narrativa, malgrado o absoluto “non sense e pieguice” da letra.<br><br>Diga-se de passagem que o ano de 1930 foi um ano “sui generis”: Carmem Miranda explode em sucesso em seu primeiro disco; Sinhô se apresenta no Teatro Municipal de São Paulo e morre logo em seguida, tuberculoso; Noel Rosa inicia uma carreira solo… O governo de Washington Luis é derrubado, Júlio Prestes é impedido de tomar posse na Presidência, Getúlio Vargas se autodeclara vencedor das eleições, o Tenente João Cabanas da Força Pública de São Paulo é um dos militares que amarram seus cavalos no Obelisco da Praça Tiradentes no Rio; Preguinho marca o 1º gol da Seleção Brasileira em uma Copa do Mundo. 1930 foi um ano muito maluco, quando toneladas e mais toneladas de café exportação foram atiradas ao mar ou queimadas, ano em que a enorme fortuna de Oswald de Andrade começa a ir para o ralo da esbornia e da má gestão.<br><br>São Paulo, em 1930, já era a locomotiva que puxava vagões vazios e foi o Estado e cidade que mais perdeu economicamente com a quebra das Bolsas de Nova York e de Chicago. 1930 é também o ano em que, timidamente, começa uma mudança nos parâmetros políticos do país e São Paulo, o Estado e a cidade, vão derramar sangue, vão sofrer vilipêndio e humilhações, mas… Mas este texto não pretende ser um libelo político ou uma laudatória histórica sobre carnavais e suas músicas; aliás, tem sim, tem algo a ver com música, política e teatro, tudo em doses homeopáticas, para usar um tremendo lugar comum literário. <br><br>Vou explicar:<br>Anos 1970, ainda trabalho na ECA USP; época complicada, ditadura militar, agentes infiltrados nas faculdades (“sssshhh! as paredes têm ouvidos!”), tortura, mortes… Estou em minha sala:<br>- “Dá licença, seu Ignácio… Ontem eu vi o senhor dando uma aula de história “prum” pessoal lá no auditório…”<br>- “É! tava sim! Tava falando da relação da música popular com os fatos históricos e políticos de cada época… (eu e outros colegas ministrávamos aulas para quem quisesse prestar os exames de madureza).”<br>- “Justamente! por isso que eu preciso de um favor seu…”<br>- “O que é?”<br>- “O senhor conhece alguma coisa da revolução de 30? As músicas do carnaval de 30?”<br>- “Da revolução eu conheço o pouco que é ensinado na escola; quanto às músicas, preciso dar uma checada na discoteca ou nos jornais da hemeroteca…”<br>- "…e essa música, o senhor conhece?"<br> E me mostrou a letra do Quebra, Quebra Gabiroba:<br>- “Dessa vez você foi fundo, heim? Onde você arrumou essa letra?”<br>- “Tá numa peça do Vianinha (Oduvaldo Vianna Filho)… "Rasga Coração", o senhor conhece?”<br>- “Conheço! Tá censurada, proibida… uma vez, faz tempo, eu vi o Vianinha falando dela no Bar da Tia…”<br><br>Uma ligeira digressão: O Bar da Tia era uma instituição “botequinesca” anterior ao Rei das Batidas, famosa pela absoluta falta de higiene, e, como no filme Casablanca, um antro onde se misturavam Esquerda Radical, Direita Radical, Centro Radical(?), alunos, professores, polícia, DOPS, militares, inocentes, bêbados e não bêbados, em uma verdadeira suruba político-cultural, em uma espécie de território livre, só faltando o Humphrey Bogardt pedindo: “…play it again Sam…”<br><br>De volta:<br>- “Pois é, seu Ignácio, eu precisava que o senhor me falasse algumas coisas a respeito…”<br>- “Sent'aí, vamos conversar um pouco…”<br><br>O garotão era muito humilde, interessado, mas bem cru, produto do ensino deficiente da época e vítima de um conteúdo programático fraquíssimo, creio que não tivesse culpa por seus desconhecimentos, em minha opinião. Durante uns 20 dias conversamos, destrinchamos a revolução de 30, falamos do Quebra Quebra Gabiroba e o porquê da inserção da marchinha na peça… Já em nossa primeira conversa fiquei sabendo das tratativas do rapaz para organizar um braço do Centro Acadêmico Lupe Cotrim da ECA na Escola de Arte Dramática, fundando um Diretório Acadêmico, coisa que acabou por fazer, efetivamente. Sua ideia era fazer uma leitura pública da peça do Vianinha, razão pela qual precisava mergulhar na política do Brasil de 1930…<br><br>Não lembro a razão porque fui escalado para fazer a conferência dos documentos dos candidatos ao vestibulinho da EAD, mas, naquele sábado frio e garoento, eu e o Lazinho atendemos apenas três pessoas, uma delas o garotão que motivou esta narrativa. Hoje em dia ele é uma celebridade (seja lá o que isso signifique!), mas naquela ocasião era um simples candidato, um pouco assustado com a cidade e com o tamanhão da Cidade Universitária. Foi aprovado no vestibulinho e começou a frequentar as aulas da EAD no período noturno; durante o dia ficava ou nas bibliotecas da Reitoria e da ECA ou simplesmente ficava tomando sol no gramado da ECA ou fugindo da chuva dentro do prédio, um “bunda esverdeada”, quase um "bunda verde" de carteirinha" e essa denominação nada tem a ver com ecologia e afins… Mas, muito bonito, sorriso cativante, olhos verdes, foi contratado “à título precário” pela faculdade por “insistência” de uma chefia. <br><br>Enquanto "trabalhou" na ECA (o rei do telefone!), vinha diariamente à minha sala para tomar café e bater um papo; essa rotina perdurou por um ano mais ou menos quando o garotão explodiu nos “mediae” de comunicação logo após a leitura da peça no Pavilhão B9 onde funcionava a EAD. A repressão não interveio porque tudo foi feito na maior moita possível, convites sendo expedidos por mensageiros de confiança, no boca-a-boca ou através de orelhões fora da USP. Em um mês, nem isso, foi contratado pela Rede Globo e aí foi um sucesso seguido de sucesso! Seu nome? Edson Celullari.<br><br>Não terminou o curso; no total não deve ter terminado nem o 1º ano, um cometa, não teve tempo de estudar ou aprimorar algum talento que por acaso tivesse; penso ser esse o motivo do Edson ser um ator gritalhão e de face inexpressiva, botóxica, ideal para fotos ou para a técnica de close ou blow up das telenovelas da Globo. Enquanto esteve “trabalhando” conosco era um cara humilde, simpático, prestativo, muito educado. Depois de contratado ainda veio uma ou duas vezes visitar os colegas; depois sumiu…<br><br>Espero que continue o mesmo garotão acaipirado, um pouco espantado com as coisas e, com a sofisticação dos equipamentos de captação de som e de áudio, que consiga aprender a modular a voz, sempre é tempo; um galã não precisa declarar-se aos berros junto ao ouvido da atriz: <br>- “Eu te amo!” <br>Brincadeirinha (a brincadeirinha vale também para o Nuno Leal Maia, que não fez Teatro, mas fez Montagem Cinematográfica)!<br><br><br>E-mail: [email protected]