Era sábado e havia uma voz ainda calada de esperança. Uma alegria muito contida, reservadíssima, um olhar meio retraído para não ser chamada de boba. Uma energia em uma caixa do estoque para um dia fazer a vida desenhar seu rumo com boa sorte. Quando? Não sei. Um dia… Em uma surda solidão naquela São Paulo de 1973, a vida corria muda.
Poucos familiares residentes na nossa cidade, uma saudade constante de conversas que não havia mais. Quem sabe uma hora vem alguém nos visitar, contando alguma novidade, alguma história divertida. Tempos de uma fome insaciável de alegria, do novo, do inusitado.
A família do meu pai era gente de baixa vibração. Parecia que carregava a vida como um fardo por demais pesado, e o semblante dava a resposta de um tempo sempre amargo. Inesgotável tempo de um sabor estranho! Falavam de um Ipiranga bom… Mas o de antigamente, do bonde e das vendinhas, da compra anotada na caderneta para o pagamento no final do mês. Junto do pagamento, uma lata de goiabada. Falavam do tempo da sopa rala porque a comida era invariavelmente pouca.
Mas eu tinha uma vontade tão grande de viver, de sonhar, de me maravilhar… Um desejo único de passear, de conhecer detalhes de uma São Paulo infinita na sua grandeza, diversidade, cultura. Sonho de ver os detalhes de um palco de abrindo e eu com direito a alguma atuação, ter poder de voz, de tocar corações, quem sabe provocar alguma mudança no sentir o mundo e se aproximar da vida sem nenhum constrangimento. A vida! Sim, a vida poderia ser bela, belíssima, com vitalidade, alguma gargalhada de vez em quando, uma fartura ocasional de sorvete de morango. A gula seria permitida e a alma haveria de esbanjar contentamento pelas amizades e brincadeiras sem fim.
A vida seria boa. Ela teria que ter um pouco de paciência comigo. Deveria me esperar para que eu pudesse contribuir, escrever o meu nome, poder, quem sabe, ensinar alguma coisa a alguém, descobrir, criar, perder medos e ter a coragem de ousar assumindo erros e podendo falar sobre eles sem nenhuma vergonha.
O colégio era o meu espaço de esperança. Até o cheiro era de acolhimento com limites, o que nos dava a dimensão de responsabilidade, respeito e de possibilidades. Eu jamais soube o que era desdenhar de algum professor! Deus foi sempre tão bom para mim que não me permitiu a petulância, a desfaçatez de reclamar ou de olhar atravessado para aquele ou aquela que me ajudaram a quebrar os muros altíssimos do impossível. Todos foram especiais para mim e sou infinitamente grata a todos os meus mestres e mestras, na sua grandeza e infinitude, na sua paciência ou cansaço, no seu interesse e no não conseguir ouvir.
Então era sábado e tínhamos aula de Inglês. Sábado de outono. O professor – que soube um dia ter participado da II Guerra Mundial – provocou uma inovação na sua didática: levou uma pequena vitrola e colocou para nós exercitarmos o nosso ouvido a música recém-lançada do Elton John: "Skyline Pigeon".
Traduzindo a obra-prima do genial compositor, temos essa maravilha que me calava profundamente na alma. E para sempre ocupou espaço nos meus sentimentos:
“Livre-me de suas mãos
Deixe-me voar para terras distantes
Sobre campos verdes, árvores e montanhas Flores e fontes em florestas
Para casa, pelas veredas da via celeste
Pois este quarto escuro e solitário
Reflete uma sombra cheia de tristeza
E meus olhos são espelhos
Do mundo exterior
Pensando no caminho
Que o vento pode virar o jogo
E essas sombras mudam
De púrpura em cinza
Para um simples pombo
Sonhando com a abertura,
esperando pelo dia
Em que ele possa abrir suas asas
E voar novamente
Voe para longe, pombo, voe
Em direção aos sonhos
que você há muito deixou para trás (bis).”
Naquela última aula de sábado, segundos antes do sinal, a turma toda se despedia de mais uma semana, em uníssono:
“Fly away skyline pigeon fly
Towards the dreams
You've left so very… So veeeeeery faaar behind.”
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