Pagando contas e recebendo o troco em ouro

Quando as contas da mercearia atrasavam, meu pai tinha que saldá-las nos escritórios dos fornecedores ou concessionários dos serviços. E esse encargo sempre sobrava para mim.
Assim, uma vez por semana, logo após o almoço, eu, de banho tomado e mil recomendações daquele mais famoso Zé que eu amei, ia de contas e cheques para a cidade a fim de liquidar os incômodos débitos.
Para ir tinha várias opções. Pegar os ônibus elétricos, ou então ir até a Av. Brasil pegar um daqueles convencionais que vinham dos lados de Pinheiros, Vila Sonia, Ferreira, Taboão, que me deixavam no Vale do Anhangabaú. Estes subiam a Av. Nove de Julho, passavam o túnel, a praça XIV Bis, entravam no Anhangabaú, davam a volta em torno do buraco do Ademar e faziam o ponto final quase na saída da Nove de Julho outra vez. Onde hoje é o calçadão, transitavam ônibus e carros.
Na volta não. Na volta eu só voltava de Jardim Europa – 51 cujo ponto final era na Praça da República, atrás do Caetano de Campos.
Minha primeira parada era na esquina do Vale com a Av. São João, quase na entrada de um cinema e onde hoje tem um restaurante. Lá eu trocava meus gibis velhos por outros velhos que ainda não tinha lido. A regra era que eu tinha que dar 2 gibis e receber 1. Às vezes valia a pena, na maioria das vezes não.
Bem, gibi na mão, subia a Av. São João em direção à R. Boa Vista pagar a duplicata da Sanbra, depois ir até o Viaduto do Chá, liquidar as contas com o Matarazzo.
Subia no ritmo de ver as vitrines, enfeitiçado pela infinidade de canetas expostas ou de roupas novas que a Exposição ou a Ducal apresentavam.
Na Sanbra era uma chatice só. Uma série de cubículos, muita demora e em dois minutos o gibi que tinha trocado já estava velho. Velho e lido.
No Matarazzo era fascinante, pois tinha uma imensidão de guichês e todos os caixas impecavelmente vestidos, camisa sempre branca e engravatados. Um deles parecia um artista pois estava sempre com sua camisa branca e gravata borboleta e enquanto o documento não chegasse, espalhava seu charme, de pé, conversando um pouco com as mocinhas que se lhe apresentavam ou gozando o pobre do Office boy, cujo time perdera no domingo.
Do Matarazzo para a Light era um pulo. Só atravessar o viaduto e nova peregrinação junto a atendentes, conferentes e caixas. Peregrinação porque o processo não era como hoje. Na época tínhamos que entregar a documentação no balcão, recebíamos uma ficha, geralmente metálica, e toca a esperar que nosso número fosse chamado. O documento percorria todo um caminho de conferências, cálculos, conferências, registros, conferências para por fim chegar até nós e aí liquidarmos a fatura.
Às vezes a demora era tanta que os boys se enchiam e começavam a bater com as fichas no balcão. Logo ficava um tim tin tim tim só, para desespero dos caixas que aguardavam, como nós a chegada dos documentos.
Uma estranha sinfonia de tins e tuns tins e tuns, de fichas no balcão e carimbos que ecoavam na amplitude do espaço da Light.
Uma rápida olhada no bolso. Sanbra/Matarazzo/Light, legal, tudo feito, missão cumprida. Hora de voltar para casa.
Voltar para casa uma ova, agora é que o legal começava.
Em frente o Mappin, subo a Xavier de Toledo ou entro na Barão de Itapetininga? Vou dar uma lambiscada num pedaço de pizza na Ayrosa lá no Largo Paissandu, ou…., que nada.
Nesta hora a cabeça se curvava ao coração e eu seguia em frente na Barão em direção à Praça da República, convencendo-me que aquela era sempre a melhor opção. Vou pegar o 51 – Jardim Europa
Na Praça da República a longa e aguardada espera, não do ônibus, mas dela.
Cinco horas, um bando de meninas, blusa de fustão (quase) branca e saia azul marinho, surgia em desabalada carreira para voltar para casa. Carros e peruas esperando, num alarido e atropelo só.
Eu esperava que ela passasse, quantas vezes eu a vi passar e quando ela me via, dava aquele sorriso dentuço e seguia adiante, pois não podia deixar de pegar a perua que a levaria para casa. Seus nove/dez anos não permitiam outra opção.
E aquele momento era mágico. Aquele sorriso era ouro. Como se fossem milhões de moedas de ouro enchendo e transbordando de uma verdadeira arca de tesouro.
Voltava para casa, cansado e satisfeito, e nem mesmo a bronca do meu pai por eu ter demorando tanto era suficiente para tirar o brilho de tanto ouro.

Quase ia esquecendo. As contas que eu pagava, quase sempre minha mãe as encontrava dobradas em quatro, ligeiramente encurvadas, perdidas no bolso de traz da minha calça, um pouco antes de levá-la ao tanque.