Três amigos. Três bairros.Três descendentes – parte I

– “Como vai?” Eu…, cada vez melhor.

É assim que o afro-brasileiro "Tosca" saúda a todos.

8h22 minutos da manhã. Passou na loja de artigos de borracha da "Clodomiro Amazonas". Comprou uma bota preta, cano longo.

Entra na "Joaquim", procura umas ferragens. Prepara tudo. Nos próximos dias ira percorrer parte desse Brasil. Intitula-se, "um quase mateiro, um biólogo de campo". Exerce sua cidadania.

Do ônibus "linha 5119", desce o "Casca". Cumprimentos. Inicia-se mais um longo e bom papo. Param em frente à pastelaria do "Japonês".

"Casca”, como foi o trabalho na cantina? Sorrindo indaga o nissei, ex-quitandeiro.

"Bene, tutti bene". As coisas foram boas. A féria da noite foi ótima. Responde o "paisano". O "Casca" é um sujeito atarracado, praticante de boxe e luta livre. Aprendeu com o "velho Gracie".

É meio "cabreiro", tipo sangue quente, mas com um grande coração. No Natal se veste de "Papai-Noel".

É sócio em uma cantina no "Bixiga". Seus avós vieram da Sicília, comerciantes e os primeiros moradores do bairro.

O "Tosca" sempre andou com o "Casca". Vizinhos desde que a família do "Tosca" veio da região das "Fiandeiras", naquele tempo pertencente à Vila Nova Conceição.

Cresceram juntos brincando nas margens do "Sapateiro", um córrego quase limpo e ainda não canalizado.

Quem defende o "Tosca", em tudo, é o "Casca", seu fiel amigo.

Os dois velhos amigos avistam o taxista, um portuga. Cumprimentos e trocas de informações.

Português, hoje não deu. Fala o descendente "carcamano".

Atrasei e só pude sair ao amanhecer. Voltei de ônibus lá da Av. Brigadeiro Luís Antônio.

Deixa para lá "Casca". Na madrugada é só ligar que eu vou te buscar. Responde cansado, encostado no seu carro, esperando sua última corrida. Afinal atendeu a saída dos barzinhos, restaurantes e baladas da Vila Olímpia.

Nessa altura os dois amigos estão parados no cruzamento da Rua Joaquim Floriano com a Rua João Cachoeira.

Esperando abrir o semáforo, avistam o falante "Poli".

A família do "Poli" foi de chacareiros. Tiveram terras na Vila Olímpia baixa. Plantavam e iam vender verduras nos mercadinhos e nas casas dos Jardins.

Seus avós eram de Funchal – Ilha da Madeira. Seu pai nasceu aqui no Brasil e jovem conheceu uma mulata nascida na Liberdade.

Casaram-se e vieram morar na "várzea". Época difícil, muito difícil. De dia, pés na lama, e à noite o coaxar de sapos e rãs.

O "Poli", agora é técnico de vôlei amador em um clube da região. Formado pela Federação Paulista, diz que é devaneio essa sua nova função.

Fez o curso de História e o de Sociologia e Política na USP. Doutorado. Leciona em Faculdades. Analista e crítico do cotidiano.

Na esquina, entre abraços, pergunta "Tosca" ao "Poli".

Já foi ao Extra? Encontrou com o "Mazza"? O "Alfi" está bem? E o "Gordo"? O "Schmit"? Soube do "Max"? O "Chicão" está aonde?". O "Sima" continua na política?

Calma, calma…, ontem à noite estive no Extra. Fui assistir, gratuitamente, o "Concerto de Violinos e Instrumentos de Sopro", com um grupo instrumental do "Centro de Estudos Musicais Tom Jobim". Todo formado por jovens de dez a 18 anos. Muito bom. Ótimos instrumentistas.

Não me diga? Interrompe "Casca". Que coisa. No prédio do "Hipermercado Extra?". E com entrada franca, "Poli"?

Isso mesmo, ações desse tipo devem ser repetidas e copiadas. Foi no amplo teatro do prédio, agora locado por um cantor, humorista e verdadeiro mecenas. Parabéns.

Mudando de humor, continua "Poli"… Estou muito triste, muito chateado. Imaginem vocês que curioso entrei no terreno lá na "Casa Bandeirista". Tudo destruído, tudo, tudo mesmo. Carros estacionados onde deveria ser um espaço aberto, um "Centro Cultural".

Da "Casa Grande" só resta uns tocos de parede. Da capela então, nada! Nem as telhas. Não respeitaram as tradições e nem as leis. Área tombada em 1982, tombada e destruída.

E olha que o Prefeito Jânio Quadros oficializou-a como "Parque Municipal". Queria à implantação da "Praça do Itaim", completa "Tosca". Vocês se lembram?

Ô se me lembro, emenda "Casca" Foi por Lei Municipal, publicada no Diário Oficial, acho que em 1988. Correto amigão. Ratifica e prossegue o engajado "Poli". Isso se deu após o "ataque a marretadas"

Era uma ação planejada dos então proprietários, o Grupo Seleto, do Naji Nahas.Tudo sob a desculpa de suposta restauração. Vejam, a Vila Nova Conceição, os Jardins, todos tem praças arborizadas, o Itaim não!

O bairro do Itaim Bibi não tem sequer uma área verde, ou pública para o lazer, cultura e de contemplação. O existente "Parque do Povo" na Marginal do Pinheiros, serve a algumas associações desportivas que praticam também o futebol de várzea, mas sob "olho gordo" de empreiteiras.Que o digam as propagandas ou "outdoor" na margem do "Pinheiros".

É eu também atravessei a quadra do ex- Sanatório Bela Vista, indo da "Iguatemi" a "Faria Lima". Afirma "Tosca", sem demora.

Derrubaram as amoreiras, as goiabeiras, etc. Só consegui contar umas seis pequenas jabuticabeiras. Incrível, caídas entre entulhos, ou ainda nos finos troncos.

Verdadeiras pérolas negras, frutinhas docinhas, docinhas. Espero poder contemplar outras floradas.

Quantas espécies de árvores nativas e outras plantas, tudo perdido. Acabaram com o belo pomar e um pedaço da Mata Atlântica Lamenta inconsolado…

A Casa Bandeirista finalmente foi restaurada. Sua parte frontal, com o alpendre que caracteriza essa arquitetura (bandeirista), dá para Rua Iguatemi, no final da Rua Joaquim Floriano. Perderam-se árvores e espaço. Ganhou-se um mega edifício, "Pátio Victor Malzoni", prédio na Av. Brig. Faria Lima, com dois blocos interligados por outro suspenso a 30 metros do solo, formando um vão de 40 metros onde se avista os fundos da antiga casa erguida no século XVIII com paredes em "taipa de pilão".

O Parque do Povo – entre as avenidas Henrique Chamma, Juscelino Kubitschek, das Nações (marginal Pinheiros) e Cidade Jardim. Foi completamente reestruturado com quadras poliesportivas, pistas, trilhas, jardins, espaço gramado, árvores e arbustos. – Parque Mário Pimenta Camargo – Atualmente gerido pela SVMAPMSP que não permite a prática do futebol em campo gramado, embora tenha área específica para tal. Motivo: Puro elitismo e desrespeito dos conselheiros (C. G. Pq. Povo) e da atual administração. O futebol de várzea, assim denominado, é um dos itens que garantiram o tombamento do parque pelo CONDEPHAAT, processo 26513/88, Tomb. Res. SC 24 de 03/06/95, D.O. 06/06/95, em Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico: Ins. Nº03, pp. 205 e 206, s.d.
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…continua na próxima edição …outra história que fica para outra vez.

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