A água da Brahma do Paraíso

Quando nossa turma se reúne, o que não falta é assunto, passamos horas falando sobre as mais variadas coisas: política, futebol, economia, mal das pessoas (que não estejam presentes), cinema, trabalho, mulher (nossas e dos outros), viagem, comida, carro, e, principalmente, como todo papo de botequim, muita conversa fiada e papo furado.

Mas no último encontro, um único tema tomou conta da mesa, e mesmo quando alguém aproveitava uma brecha para falar de outra coisa, acabávamos voltando a ele. Naquele dia, direta ou indiretamente, praticamente só falamos sobre bebidas.

Começou com a gozação em cima do Marcio, que andava sumido, porque o famoso Bar do Léo, que ele frequentava há muitos anos e vivia dizendo ter o melhor chope de São Paulo, havia sido fechado justamente pela venda de chope adulterado:
– "Marcio, eu até entendo que o cara ser enganado pela mulher ou pelo sócio, mas pelo dono do botequim…tem que ser muito otário."
– "Que nada! Ninguém engana um bebum como o Marcio. Ele sabia da jogada e ainda levava comissão pra fazer propaganda enganosa em cima da gente".

O Sergio aproveitou para brincar com o sisudo Seo Estevan, o dono do bar, um espanhol que quando não está zangado, está de mau humor:
– "Ô Seo Estevan, por falar nisso, qual é a procedência desse chope?"

Para nossa surpresa, que esperávamos aquela tradicional enxurrada de impropérios, ele apenas respondeu sorrindo:
– "No sé, ni me interessa. Pero si estas tan curioso, porque não segues El camión de entrega para saber de onde o chope salió?"

Um garçom disse que Seo Estevan passou a ter esses ataques de bom humor depois que o Corinthians foi campeão mundial em Tóquio.

Logo em seguida chegou um conhecido do Guilherme, que depois das apresentações se sentou em nossa mesa, foi se enturmando…entrando na conversa…até que só ele falava, discorrendo seus conhecimentos sobre vinho.

No início eram até interessantes suas explicações sobre tipos de uva, fermentação e correção de solo, mas o sujeito era meio esnobe, tendo até trazido de casa o vinho (e a taça) que estava bebendo (degustando, segundo ele), e começou mostrar as fotos da sua adega (mencionando o preço das garrafas) e das vinícolas que tinha visitado na Europa.

O nosso enólogo tagarela só se mancou que aquele papo de "aroma frutado", "bouquet intenso" e "harmonização entre vinhos e pratos" não estava agradando depois da indireta do Guilherme:
– "Para com essa frescura se não vamos fazer você beber uma caneca de vinho da casa (de garrafão), com gelo!"

Depois alguém começou a falar sobre cachaça, mas a conversa não rendeu muito. Foi apenas o suficiente para se chegar à conclusão de que não se pode beber nenhuma das existentes no mercado: As cachaças populares por serem muito ruins, e as cachaças finas, por não haver justificativa para o preço (de Uisque importado) cobrado pelos bares. Ou seja, pinga boa só de alambique doméstico, e se não for de graça, não pode custar mais que um real (R$ 1,00) a dose.

O Marcio pediu que não o deixássemos comprar mais nada daqueles vendedores ambulantes que aparecem nos bares, porque depois de beber, ele compra tudo quanto é bugiganga que lhe oferecem e da última vez, quase matou a mulher do coração quando ela acendeu a luz do abajur e deu de cara com o enorme urso de pelúcia que ele tinha deixado ao lado da cama.

Ele mesmo disse que já era para ter aprendido a lição, depois de ter comprado uma linda rosa de artesanato, cujas pétalas eram feitas de sabonete, que derreteu em cima da televisão da sala e escorreu pela tela do aparelho.

Finalmente chegamos ao assunto que mais deu "ibope" naquela noite, que fez até o Seo Estevan sair de trás do balcão para participar da conversa, além dos palpites e comentários do pessoal das mesas próximas: cerveja.

É impressionante como existe "experts" em "loira gelada" nesse país. Acho que o número só é menor que o de "técnicos" de futebol.

Um resumo do que consegui acompanhar daquele falatório todo:
-Enalteceram a qualidade das antigas cervejas que não são mais fabricadas, como: Colombo, Mossoró, Ouro Fino, Colúmbia, Brahma Porter e Brahma Hercules.
-Foi lembrada a época em que se exigia cerveja de casco escuro, porque as de casco verde claro perdiam o sabor, e também de como as tampinhas das garrafas estouravam sozinhas em dias muito quentes.
-A ala mais "sofisticada" da turma discutiu sobre quais seriam as melhores cervejas artesanais (foram citadas umas dez marcas, das quais eu nunca tinha ouvido falar) e o estranho sabor de algumas cervejas importadas (japonesas e mexicanas).

Seo Estevan contou a história que costumava ouvir de um freguês do seu bar, sobre o poço artesiano, furado na rocha, que existia na antiga Cervejaria da Brahma do bairro Paraíso, de onde era retirada a água para fabricação de cerveja quando a rede de abastecimento da Sabesp estava em manutenção.

Ele dizia que a cerveja feita com a água mineral do poço ficava tão saborosa, que o destino da série de fabricação na qual ela tinha sido utilizada corria boca a boca pela Brahma, fazendo com que muitos funcionários depois se encontrassem em algum supermercado de São Paulo, ou até de cidades próximas, onde após a conferência na numeração dos rótulos, levavam para casa suas garrafas como verdadeiros troféus.

Estávamos discutindo se aquela história seria mesmo verdadeira, quando um sujeito da mesa ao lado, visivelmente "alegre" pelo efeito de umas “biritas” a mais, se ofereceu para esclarecer a nossa dúvida:
– "Eu vou ligar pro sogro da minha irmã. Ele trabalhou mais de 30 anos na Brahma. A mulher dele fala que ele era casado com a fábrica, porque passava mais tempo lá do que em casa".

Ainda falamos que não era preciso, mas ele já estava com o telefone na mão:
– "Alô, Tininha? É o Nando. Não, tá tudo bem. Não aconteceu nada. Eu queria o telefone do Seo Euler, o pai do André. Eu tô precisando de uma informação. Claro que não vou incomodar ninguém a essa hora…vou ligar só amanhã. Beijo."

Ele deu uma piscada para gente e fez a segunda ligação.
– "Dona Ana? Boa noite. É o Nando. Irmão da Tininha… Cristina…Sua nora…Não aconteceu nada…Tá tudo bem. Desculpe incomodar, mas eu preciso dar uma palavrinha com o Euler…É só uma informação que eu tô precisando."

Ficamos ali ouvindo ele contar (com a língua enrolada) a história da água do poço da Brahma para o coitado do Seo Euler.
– "Não? Onde? Moóca? Ih!… Tô ficando maluco! E senhor conhece alguém lá do Paraíso? Só quando o que? Há…há…há. Essa foi boa… há…há…há."

Depois de desligar o telefone o sujeito teve um ataque de risos que quase não dava para entender o que ele falava:
– "O velho Euler é uma figuraça…há…há…há. Ele falou que só depois que morrer vai conhecer alguém do Paraíso…há…há…há…"

E todo mundo ali esperando ele terminar.
-"Eu troquei as bolas…há…há…há….Eu sabia que ele trabalhava numa, mas só tomava da outra … há…há…há…"

Tinha até quem estava achando aquilo engraçado, mas a maioria (como eu) estava com vontade de esganar o sujeito, que não parava de rir.
-" Tava pensando que o Seo Euler trabalhava na Brahma do Paraíso e tomava Antárctica…há…há…há…Mas é o contrário… há… há… há… Ele tomava Brahma e trabalhava na Antárctica da Mooca… há… há… há…"

Depois dessa pedimos a conta e fui para casa pensando seriamente em parar de beber.

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