Lendo a história do Sérgio Sayeg sobre a Rua do Bispo que marcou a sua infância, me solidarizei com ele. No meu caso não foi uma rua que marcou a minha vivência de juventude, mas sim um túnel. A história começa quando meu Tio Antonio foi morar em Osasco, na sede criada pela Empresa onde ele trabalhava. Por ser ainda um lugar ermo em desenvolvimento, a empresa construiu casas para os funcionários morarem. Ele era recém-casado, vivendo no Bairro da Liberdade onde a mãe da minha tia tinha uma pensão. Trabalhava no centro de Sampa na Rua XV de Novembro. Ele reclamava que saiu para trabalhar no fim do mundo. <br><br>A titia que foi criada dentro da pensão de sua mãe tinha sua vida rodeada de hóspedes, naquele entra e sai, e agora morando em uma casa longe do convívio de amigos e familiares. Novos vizinhos, novos amigos, mas longe do comércio e de quem conversar durante o dia! Uma cidadezinha típica do interior. Por essas famílias estar distante do centro de Sampa a empresa disponibilizava um ônibus todos os domingos para visita de seus familiares saindo pela manhã do Vale do Anhangabaú e retornando na parte da tarde. <br><br>Saíamos de casa de bonde e descíamos na Clovis Bevilaqua, caminhando até a Praça Patriarca. O primeiro local que me deixou deslumbrado foi as escadas rolantes da Galeria Prestes Maia, se não me engano as primeiras a funcionarem em Sampa. Imaginem duas crianças em um sobe e desce sem cessar nessas escadas, até o papai bronquear. O ônibus fazia o caminho pela Nove de Julho, Iguatemi, Pinheiros e passava pelo Largo do Butantã, onde tinha a Paineira do Butantã do qual fiquei fã (essa paineira centenária respirou décadas toda poluição possível, por ficar bem no meio das Av. Euzébio Matoso, Av. Vital Brasil, Lineu P. Machado e a Francisco Morato, onde veio a descansar em 1974, arrancada para construção de viadutos). Depois seguia pela Vital Brasil e Estrada de Itu (teve seu nome mudado para Av. Corifeu de Azevedo Marques). <br><br>Iniciando a jornada o ônibus seguia pela Nove de Julho quando o papai me cutucou dizendo:<br>- “preste atenção onde nós vamos passar agora!”<br> E o ônibus entrou no "Túnel Nove de Julho". Esse foi o local que mais me chamou a atenção na época. Que coisa maravilhosa. Todas aquelas luzes acessas e aquela claridade, olha, fenomenal, sem palavras. “Papai, mas que coisa linda” e na volta passamos de novo por ele. Sim, tem um que vai e outro que vem. Não via a hora de retornar a passar novamente pelo Túnel. Quando completei 14 anos fui trabalhar nessa empresa, passando por ele diariamente, ficando cada vez mais apaixonado. Um dia desci do ônibus no começo do túnel e passei por ele a pé, retornei e passei novamente. Os primos que vinham do interior em visita ou em férias na minha casa, a minha surpresa para eles era mostrar o túnel, sendo um verdadeiro guia turístico.<br><br>Para completar a titia Ana que mudou aqui para Sampa foi morar em Santo Amaro, enfim tudo passava pelo túnel, não existindo na época a 23 de Maio. Diz a história: “Inaugurado no já distante ano de 1938, o Túnel Nove de Julho é o mais belo dos túneis paulistanos ligando as zonas sul e oeste até a região central da Cidade de São Paulo. É possível notar que o crescimento urbanístico desenfreado ainda não havia chegado até os altos da Avenida Paulista. Apenas casarões e o Belvedere destacavam-se sobre o túnel.”<br><br>Nem mesmo um dos mais antigos edifícios daquela avenida, o Dumont-Adams havia sido erguido, o prédio do MASP só seria inaugurado em 1968. E finalizando: Um dos últimos episódios de demolição simbólica da história dos paulistas foi protagonizado pela prefeita Marta Suplicy. Com o pretexto de que o nome do Túnel Nove de Julho não era oficial, resolveu mudá-lo para Dr. Daher Elias Cutait, médico dos mais ilustres, que foi professor na Faculdade de Medicina da USP, na Santa Casa de Misericórdia e um dos fundadores do Hospital Sírio-Libanês. Decisão que "desomenageia" o homenageado, pois o nome "não pegou", ficou entre parênteses. Nove de Julho é data sagrada do povo de São Paulo, símbolo do generoso sangue de muitos jovens, derramado pelo ideal da democracia, do direito e da liberdade. Mas a prefeita teimou na supressão do nome. Muita dor e muito pranto estão neles contidos, inclusive o meu. Sabe de uma coisa, vou reclamar para o Bispo…<br><br><br>E-mail: [email protected]